A visita, a primeira noite e bem vindos

A VISITA

Nunca desço pra garagem, mas ontem tinha caixas de objetos que trouxe da casa da praia e precisava separar. Enquanto examinava as caixas, ouvi um barulho estranho, como se alguém entoasse um cântico.

Olhei em direção à calçada e lá estava ela: uma mulher magra, pálida, olhos claros, vestida com camiseta e calça cáqui, tendo nas mãos uma cesta com flores.

Adivinhando meu espanto, ela se apressou em explicar que era budista, fizera voto de pobreza, e me pedia um gole de café e um pedaço de pão. As andanças pelo sudeste asiático e pela Índia facilitaram meu entendimento e diminuíram a surpresa.

Reagi naturalmente. Disse que sim, claro, eu traria o pão e o café, mas ela precisaria esperar um pouco. Ela esperou pacientemente e agradeceu com educação o sanduiche, o café, e a sacolinha com biscoitos e mais pão que eu preparara.

Em retribuição, a moça – que devia ter algo entre 35 e 45 anos, não mais que isso – e portanto é moça para os meus 57, me deu um lindo buquê, que
está ao meu lado, na mesa da sala.

Sentada no degrau da porta de entrada da minha casa, ela puxou conversa, fixou seus lindos olhos claros nos meus, elogiou minha educação e gentileza. Num discurso um pouco confuso, reclamou da falta de educação e da arrogância que frequentemente a acompanha e da qual, certamente, ela era vítima constante.

Minha inusitada visitante falava com sotaque do Sul do país. Era gaúcha, catarinense? Dava pra notar que era uma pessoa educada e escolarizada. Falava comigo de igual para igual, o que me agradou de imediato.

Duas horas depois ela continuava sentada lá. Só saiu quando voltei pra casa com as compras do supermercado. Vinha pela rua, sacolas nas duas mãos e pensava nela, conjecturando o que teria levado aquela mulher a viver na rua, sobrevivendo da caridade alheia. Minha aposta é que deve ter algum problema mental, agravado pela ausência de diagnóstico e medicamento adequado.

Ao me ver chegar ela se levantou, disse adeus e seguiu pela rua com suas flores e meus votos de boa sorte!

A PRIMEIRA NOITE

No tempo da minha mãe, todo mundo sabia o que era e ansiava pela primeira noite. Era a noite de núpcias, quando a mulher perdia a virgindade, tão zelosamente preservada.

Hoje a expressão caiu em desuso. Mas foi nela que pensei ao ver a ansiedade de minha irmã e meu cunhado ao chegar o dia em que sua netinha dormiria pela primeira vez na casa deles, devido à viagem da filha e do genro à Europa.

Seria a primeira vez que a pequena, com quase dois anos, ficaria sem os pais.

Precavida, minha irmã comprou vários brinquedos – a serem dados a conta-gotas, na medida da necessidade e da urgência. Preparou um roteiro que incluía visitas ao Zoológico, aos parques e teatros da cidade.

Como explicar pra pequena que mamãe e papai foram viajar a trabalho para Amsterdã, onde está um frio danado, mas voltam em uma semana, sem falta! Como aplacar seu sofrimento, suas crises de choro na hora de dormir?

A ansiedade era geral na família, e maior ainda na minha mãe, apavorada diante da possibilidade de sofrimento da bisneta.

Nossa lindinha surpreendeu a todos. Deu um show de segurança e savoir faire . Dormiu a noite inteira, brincou feliz de manhã e voltou a dormir sem problemas, se atrasando para a escola.

Essas crianças de hoje são incríveis, dão um banho nos adultos, surpreendem a cada dia!

BEM VINDOS

As crianças demoraram a chegar na nossa família. Todo mundo ajuizado, filhos e sobrinhos só tiveram filhos depois de se formar, fazer pós graduação, comprar a casa própria, viajar pelo mundo, ir a todas as baladas.

Uma espera infinita precedeu a chegada dos primeiros netos no pedaço. Desnecessário dizer que aos nossos olhos não existem crianças mais lindas, mais espertas e inteligentes. Sua presença ilumina nossas vidas e suas façanhas diárias são o tema recorrente de nossas conversações.

A árvore de Natal, esquecida no fundo do armário, será ressuscitada e embelezada com bolinhas e luzinhas para a alegria dos pequenos.

Até anãozinho e Branca de Neve foram instalados no jardim, me fazendo pagar caro uma vida inteira de críticas aos jardins alheios, povoados de faunos e garças.

Fazemos qualquer coisa para vê-los felizes, rindo e correndo pela casa, mexendo em tudo, desenhando onde não devem, dizendo coisas surpreendentes a cada novo encontro.

Nós cantamos cantigas de roda, marchamos como soldados, usamos fantasias, saltamos repetidamente o degrau da varanda, nos escondemos no banheiro, damos mil vezes comidinha pras bonecas e pros passarinhos lá fora.

Tocamos tambor, assistimos Pepa e Patati Patata, sabemos de cor as músicas do Palavra Cantada. Vamos na Festa Junina, comemos resto de papinha, jogamos bola na sala. Somos um bando de adultos entrados na velhice, na faixa dos sessenta, completamente entregues às nossas crianças e por elas revigorados.

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