Tudo é sensível

O céu cinzento de São Paulo chorou suas lágrimas ácidas por toda noite e mais um dia. Uma quarta-feira de chumbo, passada entre lenços de papel, espirros e dores no corpo.

Minha comadre gosta de ficar gripada, recebe de bom humor esta sensação de cansaço, quase morte. Lembro da sua acolhida benfazeja à gripe e penso como é lindo o arco-íris da vida! Cada qual com sua cor preferida, cada um com suas dores escolhidas.

O dia passa devagar. Sobem da cozinha os barulhos de sempre, de água, de panelas em choque, o cheiro de alho somado ao azeite, ao sal, ao arroz.

O exaustor arremessa os aromas ao vento úmido, que os trazem direto à minha cama, às cobertas reviradas, à leitura interrompida pelas agruras da gripe. Me lembro de agradecer, a quem de direito, pelo privilégio de recebe-la recolhida em casa, deitada, quentinha, lendo um bom livro, sem ninguém pra me cobrar nada.

Direito à tranquilidade, adquirido depois de 35 anos de labuta, compromissos, correrias, agenda transbordando de atividades. Subordinados, prazos, entregas, cobranças, conquistas.

Agora posso ficar na cama. E fico, sem culpa, com prazer.

Entre um espirro e outro, me lembro do documentário que vi ontem de noite na TV, sobre um brasileiro gigante em sua inteligência, inspiração e competência: Anísio Teixeira, que, eu não sabia, morreu durante a ditadura militar, em circunstâncias suspeitas.

Professor comprometido com educação pública de qualidade, ele ocupou cargos de grande responsabilidade. Era sério, quase tímido. E como todo grande homem, reconhecia em sua companheira, mãe de seus filhos, a pessoa responsável por seus sucessos. Expansiva, alegre, festeira, ele a chamava de “minha professora de alegria”.

Penso nesta frase tão linda, tão singela, olho o céu cinza, pela janela quadriculada, e me vem à mente uma outra frase, de um homem também inteligente, que na Grécia antiga já sabia de tudo e exclamou, num rompante de grande inspiração: “Céus! Tudo é sensível!”, antecipando em milênios as descobertas da Física Quântica.

Viva Pitágoras, viva Anísio Teixeira, e viva a gripe, que me faz ficar parada e pensar neles!

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