Trilha Sonora

Quero dividir uma descoberta capaz de aliviar a dor e o tédio de nossas horas. Minha sobrinha chegou de uma longa viagem de bicicleta pela Ásia. Ela pedalou quatro mil quilômetros. Voltou com o cabelo bem curtinho e cada vez mais convencida de que devemos viver com pouco, reaproveitar tudo, consumir apenas o essencial e o que não agride o meio ambiente. Ela é minha heroína! Ainda chego lá.

Descansando depois de girar meio mundo, na calma luminosa de Cunha, no interior de São Paulo, ela nos apresentou uma rádio sensacional chamada fip – assim mesmo, em minúscula. Em alguns segundos, baixou o aplicativo da rádio no meu celular e a partir de então, graças à conexão bluetooth com uma caixinha de som, passamos a desfrutar dos melhores sons do mundo!

A rádio é francesa. Pouco entendo o que dizem os locutores, naquele idioma sensual, quase aos sussurros, mas não tem importância. O que conta é a qualidade da programação musical. Toca de tudo, tudo mesmo: clássico, jazz, rap, pop. Músicas brasileiras, africanas, japonesas, francesas, norte-americanas, árabes. É a rádio dos meus sonhos, uma mistura de tudo o que é bom.

Adoro a diversidade e a atualidade desta salada mista de sons e culturas – o melhor antídoto para a expansão xenofóbica mundial. Quando nacionalismos que julgávamos ultrapassados voltam com força, reacionários patéticos assumem o poder e o terror assusta onde não há a violência diária, como aqui, o melhor antídoto é a cultura.

Foi uma semana de puro prazer musical. A riqueza, a qualidade, a diversidade da programação me fez pensar o quanto estamos isolados no Brasil, este país continental, de costas para os vizinhos latinos, deles separados por florestas  e charcos. E apartados do mundo, do outro lado, pelo imenso oceano Atlântico.

Verdade que nossa música é divina, que nossa cultura é vibrante. Mas o lixo da cultura de massas que entope a programação das rádios e TVs é empobrecedor. Pouco conhecemos da cultura de outros países, à exceção dos EUA.

Em tempos de crise, sem reais e muito menos dólares, é possível viajar sem sair de casa e sem gastar nada além da conexão à internet. Deixe de lado as notícias de nossa indigência política, peça ajuda aos universitários, baixe o aplicativo no seu celular e flutue ouvindo boa música. Celebre a  descoberta de outras culturas, quando a nossa parece imobilizada no lamaçal da corrupção.

 

 

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