Sem paciência

No início era assim: emoções à flor da pele que não cabiam no meu corpo de menina magricela, sardenta, de óculos.

A realidade não fazia sentido e explodia em versos inspirados na coleção de poemas de Olavo Bilac. Até hoje tenho os três livrinhos. Capa azul celeste, vermelho, verde, o brilho ofuscado pelo tempo. A borda rasgada. E dentro, os mesmos versos piegas que emocionavam meu coração intenso.

Até hoje minha mãe guarda os versinhos ruins, ditados por mim e transcritos por ela, em papel de embrulhar pão. Não sabia escrever, não sabia ler e inventava o mundo.

Depois veio a escola, conteúdos inúteis e desconexos, sem nenhuma importância para a vida. Prova, chamada oral, decoreba sem fim. Exame de admissão, vestibular, formatura. Ambição profissional, escrever com tempo contado. Escrita objetiva, tentativa de contar o mundo em espaço exíguo, a procura vã pela verdade.

As palavras buscadas às pressas, em meio à algazarra da redação do jornal, um inferno de calor, de vidros de cola e de batidas incessantes nas teclas barulhentas das máquinas de escrever manuais.

Elas saíam de dentro das mesas de fórmica e eu fechava o jornal com os pés cruzados nas cadeiras giratórias, aterrorizada com as baratas que corriam na madrugada pelos chãos e paredes de pastilhas desencontradas.

Casamento. O primeiro. Primeiro emprego perdido. Mudança de cidade, outro casamento, filhos. A vida invadindo todos os espaços e as horas do dia e da noite entrecortadas pelo choro das crianças.

Levar a vida em frente. Montar casas, inventar projetos, alimentar sonhos de mudanças no país. Tudo parecia possível, quase a ponto de se concretizar.

O corpo também era quase o mesmo, elegante, enxuto, dos tempos de menina. Jantares, eventos, amigos, projetos, festas, articulações. A leitura religiosa dos jornais, a carreira de sucesso do marido, os filhos, a família, as férias, a decoração, o trabalho, as viagens, as demandas, as denúncias, mais amigos, outras casas.

O esforço de fazer a vida acontecer, de atender expectativas. Assim seguiu a vida, rápida, rica, ansiosa, voraz.

Outros empregos vieram, os filhos cresceram, mais um casamento, outra chance de um grande amor.

De repente o jeans não fecha, o colesterol não baixa, os cabelos mudam de cor. A cintura some, assim como os empregos e a paciência com a falta de vergonha do país.

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