Reflexões de Zygmunt Bauman Viver Agora

Reflexões de Zygmunt Bauman

O mundo perdeu um de seus maiores pensadores nesta segunda-feira, 9. Morreu Zygmunt Bauman. Filósofo e sociólogo, o polonês tinha 91 anos.

Um dos intelectuais mais importantes do século 20, quando criança, Bauman fugiu do nazismo e foi morar, com a família, na União Soviética, onde serviu na Segunda Guerra Mundial.
Era considerado um pessimista porque mantinha uma visão crítica da realidade. Sua teoria da ‘modernidade líquida’ trata da falta de solidez nas relações.

Quase todos os seus livros estão traduzidos para a língua portuguesa, com temas como filosofia, cultura, individualismo, avanço da desigualdade, revolução digital, e a efemeridade das relações a partir dessa revolução.
Em seu último título lançado no Brasil, ‘A Riqueza de Poucos Beneficia Todos Nós?’, Bauman aborda as atuais consequências do neoliberalismo que triunfou na sociedade capitalista nas década de 1980.

Reflexões de Zygmunt Bauman Viver Agora

Saiba mais sobre os pensamentos de Zygmunt Bauman em nove reflexões sobre relações, consumo e globalização.

1 – Identidade e redes sociais.
“A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia. Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”.

2 – Consumo e poder de escolha.
“Numa sociedade sinóptica de viciados em comprar/assistir, os pobres não podem desviar os olhos; não há mais para onde olhar. Quanto maior a liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. Quanto mais escolha parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para nós”.
3 – Sofrimento mediado pelo consumo.
“Algum tipo de sofrimento é um efeito colateral da vida numa sociedade de consumo. Numa sociedade assim, os caminhos são muitos e dispersos, mas todos eles levam às lojas. Qualquer busca existencial, e principalmente a busca da dignidade, da autoestima e da felicidade, exige a mediação do mercado”.

4 – Redes sociais e privacidade.
“Os adolescentes equipados com confessionários eletrônicos portáteis são apenas aprendizes treinando e treinados na arte de viver numa sociedade confessional – uma sociedade notória por eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, por transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever público”.

5 – Globalização e uma humanidade interligada.
“Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas”.

6 – O Brasil.
“Vocês estão no caminho certo e eu espero de todo o meu coração que vocês cheguem lá. Eu apenas direi que os representantes de 66 governos do mundo vieram para o Rio de Janeiro para se consultarem, para aprenderem sobre a experiência de retirar 22 milhões de pessoas da pobreza. Ninguém mais repetiu esse milagre, só o Brasil. Desejo que continuem isso, mas também agora algumas deficiências estão vindo à tona”.

7 – Pós-modernidade globalizada.
“Na hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a ‘síndrome consumista’ destronou a duração, promoveu a transitoriedade e colocou o valor da novidade acima do valor da permanência”.

8 – Relacionamentos em um mundo individualista.
“Em nosso mundo de furiosa individualização, os relacionamentos são bençãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam – embora em diferentes níveis de consciência. No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência”.

9 – Relacionamento e riscos.
“Não se deixe apanhar. Evite abraços muito apertados. Lembre-se de que, quanto mais profundas e densas suas ligações, maiores os seus riscos. E lembre-se, claro, de que apostar todas as suas fichas em um só número é a máxima insensatez”.
Fonte: Huffpost Brasil.

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