Profecia, a crise é oportunidade e bom é sambar

PROFECIA

Por pouco tempo tivemos fé: tudo mudaria, finalmente. Nosso país deixaria de ser promessa pra ter um presente melhor e um futuro diferente. E de fato melhorou, na real, para muita gente. Avançamos em direitos de minorias e tiramos uma multidão da miséria.

Mas nossa alegria durou pouco. As reformas apenas riscaram a superfície dos privilégios e os passos que demos pra frente não nos levaram tão longe.

A crise voltou a fazer parte do vocabulário diário – onde esteve por tantos anos, quase todos os da minha juventude e vida adulta. Desanima saber que tanto esforço, tanta luta e esperança deu no que deu: golpe de direita construído sobre os erros da esquerda. Patético, trágico.

Tristes estão estes nossos trópicos. E pra ser justa, também as regiões temperadas e frias da Terra. Nossas crenças e nossa falta de crenças, tudo se perde num lamaçal de mentiras, descrédito e desesperança.

Fomos enganados em nossa esperança de um mundo mais justo e sustentável. O tal capitalismo globalizado só gerou mais concentração de renda, perda de empregos, injustiça, raiva, desamparo, desespero.

As palavras mais apropriadas para o momento são as de Castro Alves:

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura…se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, porque não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros, noites, tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Impossível ler “Navio Negreiro” sem pensar nos refugiados apinhados em barcos precários, lutando contra a fome, a sede, o mar revolto, o desprezo dos ricos, em busca de uma vida melhor.

A irresponsabilidade e a ganância das corporações vai destruir a natureza e transformar as súplicas do poeta baiano em profecia.

CRISE É OPORTUNIDADE

De nada adianta lamentar ou desesperar. Não ajuda, não resolve, só atrapalha. Então, diante da crise que se aprofunda, a resposta é mudar, criar, ser maleável, cortar. Principalmente, cortar. Cortas gastos, rever necessidades, conceitos, priorizar.

Sorte dos que, como nós, já criaram os filhos, juntaram algum patrimônio, estão aposentados com saúde, podem seguir trabalhando.

Ter vivido os anos 60/70/80/90 e as primeiras décadas dos anos 2000 no Brasil fez de nós seres resistentes, fortes. Nos deixaram mais do que rugas ou descrenças. Nos fizeram resilientes, sabedores de que nada é pra sempre.

Aprendemos que as dificuldades podem ser superadas. Não há noite eterna. Crise é também oportunidade de rever conceitos e fazer diferente.

Não tem saída. O negócio é abrir os olhos, estar atentos, conectados no presente. Seguir em frente sem desânimo ou desespero. Filhos e pais contam conosco. Netos chegaram ou estão chegando em breve. Devemos nos entregar à sua ingênua alegria e persistir, por nós e por eles.

BOM É SAMBAR

O samba é uma bênção. Poder sambar, dançar até de madrugada, espantar as mágoas. Que delícia ouvir Clementina, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Jamelão, Clara Nunes.

Adoro chorinho, Villa Lobos, Jobim. Amo ler Machado, Leminsky, Drummond. Ver os quadros de Volpi, um filme de Domingos de Oliveira ou dos novos cineastas pernambucanos.

Que privilégio aplaudir Elza Soares, Antonio Nóbrega e Zé Celso. Ser contemporânea dos doces e bárbaros Caetano, Gil, Betânia, Gal, Chico, Roberto, Miltom. Acompanhar a beleza do Grupo Corpo, da São Paulo Companhia de Dança, de um espetáculo de Debora Colker. Apreciar a inteligência de um cenário de Daniela Thomas, de uma construção de Lina Bo Bardi, Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha.

Um sopro de vida nos deram os modernistas, Mário de Andrade, Oswald, Tarsila, Anita. Sublimes foram Elizeth Cardoso, Cartola, Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Luis Gonzaga, Elis Regina.

Devemos ser gratos por ter tido Chico Science e seu mangue beat. Libertários como Cazuza, poetas como Cecília Meireles, Cora Coralina, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes. Escritores como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Clarice Lispector.

Que delícia ouvir Nana Caymmi, Guinga, João Gilberto, Monica Salmaso, Renato Braz, Marisa Monte.

Ver os documentários do Canal Curta, os programas do Canal Brasil, conhecer novos artistas plásticos e jovens músicos no Arte 1.

A cultura brasileira nos redime, nos inspira, faz de nós um povo único, múltiplo, rico, vibrante, interessante. Apesar de tudo, como gosto de ser brasileira e falar esta língua doce como ninguém mais fala.

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