Parreira

Ele torce, se retorce, se contorce. Inseguro, agarra-se a qualquer superfície: a princípio timidamente, mas com o passar dos dias cria garras verdes que se enovelam e colam o ramo em qualquer superfície que possa ser abraçada.

As folhas, de um verde alegre, claro, têm milhares de canais por onde passa a seiva da vida vegetal. Resistente à chuva, ao vento e às intempéries do clima, não suporta a geada. E a neve é sua maior inimiga.

Pacífico, o galho da parreira não tem espinhos. É recoberto apenas por uma leve penugem que acaricia os dedos. As folhas também são doces ao contato e seu temperamento é o de alguém animado, profícuo em sua contínua produção de folhas e galhos.

Ele nos protege do sol formando lindos caramanchões, locais de repouso e enamoramento, de reunião em torno de limonada gelada. Mas seu maior presente não é a sombra e sim a fruta em forma de cachos verdes ou cor de vinho, a uvas sagradas de tempos imemoriais.

A parreira nos traz a embriaguez dos deuses, nos faz esquecer de nossa mortalidade. Ela conforta a humanidade de suas dores e adoça a realidade.

Tínhamos uma parreira de uvas pretinhas no quintal da casa da minha infância. Ainda ouço as risadas das crianças brincando de pega pega e sinto na boca o gosto adocicado de seus fartos cachos, que me acompanharam até depois do primeiro casamento, que me consolaram da primeira separação e reconfortaram, com sua incansável beleza, meu coração de mulher.

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