O que ficou

Quando ainda era jovem, li um poema que dizia que de tudo fica um pouco. Um pouco do teu queixo, no queixo de tua filha…
Verdade pura. Daquele primeiro casamento, tão distante, ficou a bandeja cor de vinho da ex-sogra, ainda útil na casa de praia. Olho pra ela agora, quase quarenta anos depois, repleta de frutas tropicais.

Em cima da mesa, o porta-incenso da casa de Brasília, quando os meninos eram pequenos, escalavam muros e viviam pendurados em árvores! Hoje são adultos, cada um com sua vida, e não disputam mais a minha atenção.

No armário repousam, indiferentes, os bules e potes feitos de côco, trazidos da viagem ao Ceará, onde conheci os pescadores mais corajosos do mundo – homens que enfrentam o mar alto em cascas de nozes, sem equipamentos, sem nada. Eles sim, heróis da sobrevivência!

Na estante repousam os vasos que minha mãe pintava, ao lado do Espírito Santo trazido de Pirenópolis. Na parede, o quadro pintado pela cunhada e o auto-retrato feito pela sobrinha quando estava no curso primário. Ela agora é cineasta, com pós-graduação.

A vida segue em frente, em sua marcha inadiável, mas os objetos ficam pra trás e insistem em nos lembrar que um dia tudo foi diferente.

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