No parque

O parque é minha lição diária. Odeio me exercitar, mas gosto de observar a vida que se desenrola, amena, entre as árvores e os brinquedos.

Gosto de ver pais ensinando filhos a andar de bicicleta. Avós empurrando carrinhos, concedendo aos netos a liberdade de se molhar ou lambuzar em sorvetes na hora do almoço.

Enquanto caminho por obrigação, busco prazer na atividade repetitiva, passo após passo, observando meus companheiros de atividade ao ar livre.

Dividimos o sol e a sombra, as alamedas e vagas de estacionamento. Os banheiros, as quadras, a cantina, os aparelhos de ginástica, as mudas de plantas medicinais. O céu azul ou nublado. O cheiro de esgoto que sobe do rio, ali ao lado.

Dividimos nossa humanidade a céu aberto e isso é tudo. No mais, cada um está num estágio diferente da vida e portanto é como se vivêssemos em mundos paralelos.

As crianças testam os limites impostos pelos adultos, exploram o universo ao seu redor e, excitadas, correm de um brinquedo a outro sem fixar sua atenção em nada por mais de alguns minutos. Choram, riem, gritam, fazem birra. Infernizam e encantam. Se divertem e sofrem na mesma intensidade.

Os jovens andam em bando. Ruidosos, carregam mochilas pesadas e se arriscam em patins, bicicletas e todo tipo de esportes. Riem, se batem, correm uns atrás dos outros. Meninos e meninas alheios ao sol, ao vento, aos demais frequentadores do parque.

Estão preocupados demais com seus umbigos, com seus colegas, com seu desejo pelo sexo oposto ou pelo mesmo sexo. Discutem banalidades aos gritos, gozam com maldade dos membros mais fracos do grupo. Todos preocupadíssimos com a aparência.

Mães e pais jovens são raros. Não os vejo durante a semana. Estão no trabalho. Lutam pela vida com energia e ambição. Querem construir carreira, comprar apartamento, acumular bens, fazer pós graduação.

Quem mais circula pelo parque de segunda a sexta? Os funcionários, olhos e ouvidos ligados nos celulares, em conversas e mensagens sem fim. Reunidos em equipes de trabalho, realizam suas tarefas sem entusiasmo ou dedicação. Com o enfado de quem ganha mal. E falam da vida, contam casos, filosofam e dividem lições aprendidas na televisão.

Quem mais trabalha são os encarregados da limpeza, da varrição. Os guardas nunca estão por perto quando se precisa deles. Vigiam o nada e mal se locomovem pelo parque.

Todo santo dia uma boa alma põe quantidades de banana e mamão para os passarinhos: sabiá, sabiá laranjeira, quero quero, joão de barro, pomba, rola, bem te vi. Todos atraídos pela clareira rasgada no coração da cidade, com árvores plantadas que ainda não tiveram tempo de crescer.

A sombra é disputada pelos piqueniques, aniversários cada vez mais frequentes, pelas famílias com crianças pequenas, pelos idosos com suas cadeiras de rodas e acompanhantes.

A hora do almoço, minha hora de caminhada, é a dos aposentados, dos grupos de senhoras de meia idade que mais falam do que andam. Dos fiéis jogadores de tênis, com suas intermináveis disputas.

Casais de namorados procuram se esconder nos lugares distantes, afastados do burburinho do parquinho e da lanchonete. Querem paz para seus amores.

Cumprimento com um leve aceno de mão ou de cabeça outros habitués, com quem cruzo diariamente e com quem divido ordens médicas ou o sonho de uma vida longa e isenta de limitações físicas. Quimeras nas quais fingimos acreditar, todos nós, os frequentadores maduros do parque.

Nossos tênis são caros, prometem amortecer o impacto de nossa caminhada ou corrida no chão de cimento. Nossas roupas são adequadas à prática esportiva. Temos tempo nas mãos, algum dinheiro no banco, os filhos criados e as carreiras resolvidas ou abandonadas.

Aceitamos, resignados, o fato de que temos de nos exercitar. Se quisermos continuar a viver com um mínimo de dignidade, agora que estamos às vésperas da velhice.

Sigo contando as voltas que faltam no traçado por mim estabelecido. Respiro fundo, me alongo enquanto caminho. Encolho a barriga, levanto os braços. E observo meus companheiros de parque. Eles se equilibram em bicicletas, apostam corrida em triciclos alugados, patinam ouvindo música, correm atrás de filhos ou netos.

Habitamos a mesma cidade e buscamos refúgio de sua aridez entre as mesmas árvores. Eu os observo com curiosidade e atenção.

Busco aprender com eles, meus companheiros de jornada.

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