Na tarde

O sol já se despede. Reinou absoluto durante o dia quente e seco de um inverno paulistano que já não existe mais. Do frio, da garoa, restou a névoa da manhãzinha dissipada aos poucos pelo cantar dos pássaros refugiados aqui, como nós.

O sol sai depois das 10 e ganha força. Meio dia e nenhuma nuvem, por menor que seja, cruza os céus da cidade ocupada em seguir seu destino. Crianças sacolejam em ônibus escolares, a menor ainda de chupeta. Mães e pais correm como loucos em busca da grana, da fama, da glória, quem sabe apenas de um pouco de sossego, um oásis nesta massa cinzenta e barulhenta, milhões de seres justapostos como colagem mal feita.

Segue o dia de céu azul, de vento que carrega folhas secas, poeira, sujeira que entra nos poros e irrita o olho da ciclista que aguarda o farol abrir.

Busco algo pela janela aberta, cabeça pra fora, sedenta de luz no carro coberto de preto nos vidros por todos os lados. Respiro fundo e sinto o cheiro da seca, da poeira, do rio fétido e morto. Como pode uma cidade existir depois de matar seus rios, cortar suas matas, cobrir de asfalto suas nascentes e riachos? Derrubar suas velhas casas, esquecer seus heróis, cultuar bandidos e usurpadores, celebrar defeitos como virtudes?

Me pergunto, como pode? E sigo em busca de viver mais este dia com plenitude e alegria. Foco no prazer das azaleias que tingem os jardins e enfeitam minha escadaria. Reverencio os ipês que explodem em perfeito amarelo, substituindo aos poucos os ipês rosas da minha paixão!

Aplaudo em silêncio cada nova orquídea e as florezinhas amarelas e roxas que cobrem o muro que separa meus vizinhos de mim.

Os ecos do trânsito chegam em espasmos previsíveis. Passa uma moto mais barulhenta, seguida por um que ônibus estremece os vidros das janelas pintadas de azul. Buzinas, um grito, os incansáveis pastores alemães do outro vizinho anunciam a passagem de cachorros e seus donos em irritante cacofonia de latidos inúteis.

O sol finalmente desaparece atrás de muitos prédios e deixa um rastro vermelho de sangue no horizonte poluído.

A rotina dos disciplinados paulistanos não faz sentido. Sua eterna prontidão, sua submissão ao trabalho contínuo. Nada disso tem valor diante do dia que finda, e muito menos da noite de segunda-feira, cheia de preguiça, com gosto ainda da cerveja de domingo.

Quase ninguém parece perceber a evidente falta de sentido neste vai e vem, zigue e zague, corre corre infinitos.

Meus pobres e queridos concidadãos!

Seguem como zumbis desalmados e apressados, alheios aos pássaros que insistem em anunciar o crepúsculo e se despedem do dia no alto das minhas árvores.

Gosto demais destes pássaros, das flores, das árvores, da cor do céu no inverno de São Paulo. Gosto da temperatura, da secura do tempo e das gentes. Não poderia viver na Bahia e a beleza sobrenatural do Rio de Janeiro, mesclada à superficialidade de sua gente, jamais me cairia bem.

Sou fruto desta terra de ninguém. Deste solo infértil, sem mais horizonte senão aquele visto de edifícios bem altos.

Minhas narinas não estranham a falta de ar. Meus sentidos abstraem os pedintes, as motos, as bikes, a fila de carros, a falta de espaço e de vagas no estacionamento.

Vejo apenas aquilo que alimenta minha alma: meus seres alados, beija flor, bem te vi, sabiá, andorinha. Maritacas em bandos que alardeiam sua alegria. Algazarra ignorada por meus semelhantes, tão diferentes de mim.

Pouco a pouco me desfaço dos hábitos da vida antiga. Tenho orgulho de ser desocupada. Não desejo acumular mais nada. Apenas existir – e ver o que ninguém mais vê – me basta.

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