A morte e eu

A morte e eu

Viver o Agora implica no estabelecimento de relações muito especiais com a vida e também com a morte, que, aliás, tem me apanhado de surpresa vez por outra. É sempre um exercício difícil entender os tais desígnios de Deus, as conspirações do universo ou as armadilhas do destino, para depois concluir sobre o sentido da vida, ou da morte. O primeiro sinal de que eu teria uma relação diferente com a morte foi quando meu cachorro partiu, o Quincas. Eu havia me separado e o Quincas foi morar com a tia da Cláudia. Infeliz, longe do dono, morreu no dia do meu aniversário.

Meu amigo Luís foi um dos que partiu precocemente, com menos de 30 anos. Fui busca-lo no apartamento à noite para uma balada e ele reclamava de uma dor de cabeça, persistente. Chá, analgésico, massagem, nada. Foi parar num hospital e partiu do jeito que tanto temia: um tumor no cérebro, o mesmo que matou seu pai anos antes.

Com meu pai, a história foi assim: num domingo, com Gabriel bebê no carro, eu me perdi a caminho de um almoço de família na Zona Sul de São Paulo e não consegui vê-lo.  Na segunda-feira à noite, meu primo vem com a notícia de que ele morreu de um ataque cardíaco fulminante, mesmo morando nos fundos de um hospital. Anos depois, com minha mãe outra coincidência. Eu morava em Florianópolis e combinamos de comer uma pizza em São Paulo. Liguei mas ela não atendeu o telefone, porque estava tendo um AVC. Quando a porta do apartamento se abriu era tarde demais e assim ela também partiu. O nono Mário começou a morrer quando ficou cego e, um dia, submetido a uma simples operação para extração de cálculo renal, ele nunca mais voltou. A nona Amélia, fumante inveterada, viveu 90 anos e morreu dormindo. Sorte dela. Minha avó Catarina estava doente e faleceu em pouco tempo e, dias depois, foi meu avô Antônio que não suportou perder a companheira de décadas e foi ao encontro dela numa outra dimensão, com certeza.

Outro amigo, Vilson, a morte também o pegou de surpresa. Havia tratado de um câncer que, aparentemente, havia sido eliminado de seu pulmão fumante. A doença voltou, de repente, e o levou em questão de dias.

Recentemente, fui visitar minha amiga Liliane em Florianópolis, cuja filha estava se formando no ensino médio. Ela já havia perdido o irmão e o marido e estava lutando contra uma grave doença na coluna, praticamente irreversível. Conversamos longamente e percebi que ela estava cansada de lutar. Pensava na filha Duda, que sequer completara 18 anos, mas a doença foi cruel e a levou, ainda jovem. Acho que foi uma espécie de presente de Natal que ela se deu, pois foi uma guerreira que suportou até o limite do suportável.

Confesso que houve uma época, depois da morte do Luís e do meu pai, que eu mesmo pensei que ia partir daqui mais cedo, mas a verdade é que cada um de nós cumpre um ciclo aqui na Terra e não temos o menor poder sobre o que está designado para nós. Sabemos que a ciência e a tecnologia vão nos surpreender em breve, evitando – ou antecipando – o diagnóstico de doenças que hoje matam, mas que no futuro não serão mais uma ameaça a nossa sobrevivência.  Mas esse dia ainda não chegou.

Em momentos tristes como estes, a gente recorre a fé, às crenças, de que estamos partindo para um mundo melhor, sem as injustiças e dores do presente.

Quero acreditar que o espírito dessas pessoas que amamos vai viajar para outras dimensões, reencarnar para viver novas aventuras e assim alimentar o ciclo perpétuo da vida/morte/vida. Espíritas escrevem muito sobre esse tema, mas nessa hora me vem à cabeça um livro de Jack London, que li muitos anos atrás, “O andarilho das estrelas”, onde o protagonista Darrell Standing, submetido a torturas severas no presídio, viaja no tempo, encarna pessoas do passado e conclui que há vida após a morte. E assim, ele segue para a forca com um sorriso nos lábios, para espanto dos guardas do presídio de San Quentin.

Vamos Viver o Agora intensamente, se possível, com um sorriso nos lábios, porque a morte chega para todos nós, mais dia, menos dia.

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