Meninos e Meninas

Em tempos de crise brava, quando o dinheiro fugiu de nossas carteiras e se multiplicou nas contas de políticos corruptos no exterior, comer fora virou um luxo escasso.

Ontem, depois de muito tempo, fomos a um tradicional restaurante alemão em Moema, um bairro nunca frequentado por nós, moradores da zona Oeste paulistana. Chegamos cedo, acompanhados por um casal mais jovem. Nos instalamos numa mesa ao fundo, que parecia mais aconchegante e silenciosa.

Não demorou muito, nossa calma foi interrompida pela chegada ruidosa de umas vinte pessoas que pareciam saídas de um filme sobre a nova terceira idade: joviais, bem vestidas, se cumprimentavam com alarido. Eram amigos íntimos, deviam se encontrar com frequência, estavam relaxados, felizes por estarem juntos. Imaginei que podiam ser companheiros do clube de golfe.

Para surpresa e desgosto de nossos jovens acompanhantes, em lugar de se sentarem juntos, nossos vizinhos rapidamente se dividiram em duas mesas contíguas, homens em uma e mulheres na outra. E a conversa seguiu, animada, entre chopes e cervejas escuras, goulashes, joelhos de porco, salsichas e saladas de batata.

A divisão acabou gerando outra divisão, desta vez etária, em nossa mesa de sexos misturados.  “Como assim sair em casais e sentar separados por sexo?”. “Por que não?  Eles estão se divertindo!”, foram alguns dos argumentos invocados.

De repente, me vi transportada às festas da minha infância, onde o comum, o natural, era homens de um lado e mulheres de outro. Os temas das conversas claramente definidos e divididos. Mas já então minhas tias adoravam futebol e acompanhavam os jogos pela TV. Outras começavam a trabalhar fora  e política, em tempos de ditadura, era um tema evitado igualmente por todos, o que não me impediu de fugir do colégio para a aventura das primeiras passeatas.

Como explicar aos jovens que estas pessoas, casadas há décadas, preferiam a camaradagem, os papos, as piadas internas, a intimidade de velhos amigos do mesmo sexo? Nem seguimos tentando. A sobremesa chegou e passamos a outros assuntos, cada um convencido sobre sua verdade.

 

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