Mal Me Quer, Bem Me Quer

Caminhava distraída pela avenida Paulista, em meio à fauna e flora mais diversas da cidade. Ia vazia, perdida no mundo sensível e complexo do filme que acabara de assistir (”Um Instante de Amor”, da cineasta francesa Nicole Garcia, inspirado no romance da italiana Milena Agus e estrelado por Marion Cotillard).

A ação começa numa comunidade rural na França: uma moça sonhadora, vítima do machismo e dos preconceitos de sua época, é casada, contra a vontade, com um homem simples, empregado de seus pais na fazenda.

A personagem vive nas nuvens, se apaixona por quem não deve, seu sexo reprimido escapa por todos os poros. Passa a vida inteira desejando um amor impossível, sem prestar atenção e sem valorizar o homem maravilhoso que tem a seu lado, que a ama com todas as qualidades que um amor pode ter.

Ela se dá conta disso décadas depois. Talvez então eles possam viver uma vida plena e a nossa heroína por fim reconheça e agradeça pela vida ter lhe dado algo tão precioso quanto um amor de verdade, sem mistificação.

Andava pela avenida que melhor sintetiza São Paulo, entre skatistas, hippies, executivos, estudantes, gays, lésbicas, transgêneros, cabelos tingidos, cabelos lisos, afros exuberantes. Andava e pensava naquela mulher que desperdiçou a vida, desconectada da realidade, perdida em ilusões.

Sentei pra tomar um chá no quintal da Casa das Rosas. Enquanto esperava, perambulei entre os canteiros, procurando adivinhar o perfume das rosas que dão nome ao lugar.

Foi então que vi, perdido entre as roseiras, um trevo de quatro folhas. Sim! O trevo dos amantes, dos enamorados!

Não hesitei em pisar na grama e arrancar com presteza aquela maravilha. Precisava ter certeza de que a personagem do filme acordaria enfim de sua cegueira. Fechei os olhos, me concentrei na mulher francesa e em seu sábio e silencioso marido e munida de uma fé que até então desconhecia, comecei a recitar e a arrancar, uma por uma, as quatro folhas do trevo milagroso.

 

 

 

 

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *