Karma tem limite

Minha amiga e eu estamos na praia, numa casa no meio do mato. E temos pavor de insetos, como qualquer mulher urbana.

Estamos dentro de uma reserva de Mata Atlântica. Sortudas, apreciamos os vaga lumes quando escurece, e durante o dia acompanhamos o voo delicado das enormes borboletas azuis. Pássaros de cores incríveis passeiam no nosso jardim. Beija flores de todos os tamanhos nos visitam, insistentes. Até um casal de araras e uma família de tucanos já deram as caras por aqui.

No fundo do quintal, os galos e galinhas da dona Aurora ciscam no meio do mato. Temos ainda cachorros e gatos de outros vizinhos que cruzam o nosso quintal, alheios às cercas inventadas pelos humanos. Os grilos, as cigarras, o coaxar insistente dos sapos. Nada disso nos incomoda. Até os pernilongos, de todos os tamanhos e cepas, aparecem e são naturalmente combatidos.

Se fossem só esses os intrusos, tudo bem. Mas não. O mato anda alto, a chuva é muita, então sai um sol forte e os insetos, esses bichos muito esquisitos, invadem a casa por todos os cômodos, nos obrigando a mata-los, cheias de horror.

O problema são os grilos gigantes, os lagartos hermafroditas de cobra com lagartixa, aranhas enormes, centopeias e outros seres invertebrados inomináveis, que acredito nunca terem sido descritos nos livros. As cobras venenosas, felizmente, não costumam entrar em casa. Ficam no mato, longe de nós.

Vivemos em estado de alerta constante. Nada se pega, nada se calça sem cuidado ou atenção. Só nos últimos dias, matamos uma aranha grande e preta, um grilo enorme e esquisito, uma perereca (esta foi esmagada pela porta, sem querer) e uma pequena barata.

Sei o que pensam os budistas, mas não me importo. Não há castigo em vida futura, por mais doloroso que seja, capaz de me convencer, nesta vida, a dividir a casa com estes bichos!

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