Em brasas

Vestir, agora, tem que ser em camadas. E camadas finas, como as de uma cebola.

Escolher um sapato que fique confortável quando os fluxos de calor me obrigarem a tirar as meias.

A calça também tem que ser fina e maleável, fácil de se despedir, quando tiver que ir embora.

O vestido tem que aceitar sapato, meia e calça comprida, mas – aconteça o que acontecer – tem que ter mangas curtas e não pode ter gola alta.

Por sobre o vestido, enfim, o agasalho levinho pra espantar o vento, sempre aberto na frente e fácil de dobrar e carregar  na bolsa.

Este, o figurino da meia idade.

As mulheres que já chegaram ou ultrapassaram a menopausa sabem do que estou falando. Algumas, sortudas, nem prestam atenção aos sintomas desagradáveis do período. Entram e saem da menopausa sem maiores sofrimentos.

Outras enlouquecem, os nervos em montanha russa, sentem calores abrasivos, insuportáveis. Acordam encharcadas, deitam no chão do banheiro, tomam banho no meio da noite, têm insônia, depressão.

Lamento não fazer parte da primeira categoria, onde se situam minha mãe e minha irmã. Mas também não estou entre estas últimas, as mais atingidas pela chegada desta nova estação da vida.

Estou numa categoria intermediária: o sono piorou um pouco, mas não muito. Os calores são frequentes, mas suportáveis, nada tão ruim.

Os sintomas são amenos e, em contrapartida, persistentes. Lá se vão cinco anos e muitos remédios alternativos – e nada. Os calores persistem, agarrados ao meu corpo, obrigando-me a desenvolver dotes de contorcionista para driblar o fogo que se acende dentro de mim e se apaga em segundos.

Inverno em São Paulo e o frio não me atinge. Olho nas ruas as pessoas encapotadas e eu de vestido e sandálias, quase com calor.

Os casacos de lã estão empoeirados, esquecidos no armário. E já nem me lembro onde guardo os sapatos fechados.

Por sorte não perdi o bom humor e nem o marido, enterrado diariamente em camadas extras de cobertor que jogo sobre ele em intervalos regulares todas as noites.

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