É dezembro e Encontro Marcado

É DEZEMBRO

É dezembro e durmo de cobertor na praia.

É dezembro e as contas não fecham. Dezembro e não há emprego, não há remédio. Dezembro e nem adianta fechar pra balanço.

Sim, é dezembro de um ano intragável. O dezembro mais negro da história recente do Brasil. Um dezembro que viu o enterro dos mortos da tragédia aérea que poderia ter sido evitada. Tudo errado. Tudo!

É dezembro de um ano que tarda em findar, com seu rosário de espinhos e sua cauda de horrores! Dezembro tumultuado com a divulgação da lista da Odebrecht, das contas milionárias em joalherias, das fortunas em paraísos fiscais roubadas do futuro das crianças, dos idosos, dos hospitais, da segurança.

Dezembro e ainda não faz calor. Dezembro e os políticos querem dar novo golpe, dezembro de um ano podre, as entranhas dos poderes à mostra em praça pública para vergonha e indignação gerais.

Dezembro chega, enfim, envolto num manto de ódio, lama e revolta. Chega arrastando atrás de si outros onze meses de denúncias e desesperança.

ENCONTRO MARCADO

Na praia deserta o grupo de amigos celebra o dia de sol. Eles vieram pela trilha e jogam risada fora diante da beleza do encontro entre céu azul, mar transparente e mata virgem. Param de quando em quando para selfies coletivos. Cruzo com eles e me ofereço para fazer a foto oficial.

Eles são mais jovens do que eu e meu amigo. São colegas de trabalho que viajam juntos a negócios e a prazer. Estamos felizes, não há por que negar. Paraíso de lugar, dia perfeito, a companhia de bons amigos.

Somos bem informados, sabemos de tudo. Sentimos na pele a gravidade da situação do país, mas ninguém fala sobre isso. A conversa animada flui solta como o vento, atiçada por cervejas e afinidades.

Nossa despedida, forçada pela chegada do barqueiro, deixou na boca um gosto de quero mais.

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