Dia de podar o jardim

Não devemos ter medo de cortar, podar, arrancar galhos, folhas, até mesmo flores. O corte é feito para que algo novo nasça revigorado, mais forte, melhor.

Assim reagem as plantas, as unhas, o cabelo. E as relações. “O medo do corte retarda o aprimoramento”. Me vi dizendo esta frase, aparentemente desconexa, em voz alta, enquanto observava o jardineiro em sua luta semanal contra as pragas e excessos do meu jardim.

Ele deixou cair a tesoura, tirou as luvas imundas de terra e me fitou com a sabedoria prática que só os que lidam com a terra sabem ter.

Fiquei constrangida, com cara de tola, e ele sem tirar os olhos de mim.

A senhora tem razão, disse ele por fim. Toda sabedoria nasce da observação da natureza. Se as pessoas falassem menos e observassem mais, veriam quanta coisa está errada e poderia ser consertada.

Ah, é, seu Adeílson? Se a gente observasse a natureza, o que a gente aprenderia?

“A gente veria que tudo tem seu tempo: tempo de nascer, de crescer, de florir, de morrer. Saberia que tudo muda o tempo todo, nada é igual, que é preciso ter paciência, não apressar as coisas.

Compreenderia que somos todos partes de um todo. Nós de uma rede que a todos une em comunhão perfeita. Entenderia que vida e morte, dia e noite, alegria e tristeza saúde e doença fazem parte da vida. Devem ser aceitos de bom grado, porque resistir só aumenta o sofrimento. Se a gente observasse mais a natureza, não precisava tomar remédio contra tristeza. Era só ficar paradinho, quieto, ouvindo o silêncio, o canto dos pássaros. Só assim a gente fica em paz: em silêncio. Essa gente hoje em dia não para de falar, de ler, de assistir TV, de olhar o celular. Vai acabar tudo doido!”

O senhor tem toda razão, seu Adeílson! Foi só o que consegui responder. E enquanto ele punha as luvas de volta a retomava a poda das roseiras espinhudas, me afastei agradecendo o privilégio de estar aberta para aprender com tudo e todos, a cada dia.

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