Crônicas rápidas

Antes da tarde, tinha a manhã. Acordar cedo, apesar de domingo. Obrigação de ir à missa. O tédio certeiro na fala sincopada e sem sentido do padre. Contar os nichos dos santos, os quadrados do teto. Reparar nas carolas, no som desafinado do canto da “missa dos jovens”.

Contar os minutos para aquilo acabar. “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe!”. Finalmente chegar em casa e encontrar o banquete de domingo: vários tipos de massas e molhos, salada, carne, legumes, sobremesa. Tudo feito em casa, tudo delícias, saboreadas ao som inequívoco, irritante, de Silvio Santos.

Ele e seu baú. Ele e suas piadas sem graça. Ele e sua risada que me enchia de tédio e agonia.

A TV ficava na sala. Meu avô decidia o que a família ia assistir. E eu era obrigada a engolir aquelas doses cavalares de melancolia.

O PASTEL DA FEIRA

A ciência conseguiu. Com suas pesquisas proibiu a fritura. Descobriu que o colesterol mata e, mais que depressa, todos os jornais, revistas e TVs despejaram sobre nós toneladas de advertências.

Quem lê sabe. Quem sabe tem culpa e assim estragaram mais um dos meus prazeres – o pastel da feira, sempre tão bem acompanhado pelo caldo de cana – este também, coitado, proibido.

Açúcar, gordura, glúten, ovo, farinha branca, óleo de soja, leite. A lista de proibições não para de crescer e de aborrecer aqueles que, como eu, adoram comer livremente tudo que é gostoso, como o pastel da feira: recheado, fumegante, que queima a boca dos afoitos.

Este pastel abençoado, feito com paciência oriental, frito em tachos de óleo usado e reusado. O pastel grande, dourado, que iluminava minhas manhãs de sábado, que tornava suportável as andanças pela feira, de barraca em barraca, carregando sacolas pesadas, ao lado de minha mãe.

Há anos não provo esta iguaria. Eu, que a tudo obedeço em nome da saúde, deveria ser fiel ao meu desejo, saciar minha vontade e mandar às favas a ciência e a sabedoria.

A SINETA

Gostaria de lembrar daqueles tempos. Dos dias muito frios de inverno, da garoa fina que caía e gelava minha alma de criança, minhas pernas finas e brancas que tremiam no rigor do inverno sem calças compridas, proibidas pelas rígidas regras da escola ainda fascista.

Estas reflexões me chegam trazidas pela visão da sineta depositada sobre a mesa do antiquário que eu bisbilhotava para matar o tempo que agora tenho de sobra.

O sino que chama os empregados, um símbolo esquecido da rígida divisão de classes que persiste no país, embora a sineta tenha caído em desuso.

Ao vê-lo me lembrei daquela tarde, na casa de Lívia, uma colega de curso primário. Sua família tinha vindo da Itália. Aristocratas falidos, mas isso eu não sabia naquela época.

Fora convidada para um chá da tarde. A velha casa, com seus móveis de época, estava na penumbra. A mãe, cheia de joias, me recebeu num tubinho preto. Tinha mãos de fada, sem sinal de terem passado pela cozinha.

Ela usava colar de pérolas, perfume forte e falava com sotaque que hoje sei ser o italiano de Milão.

Tudo ali era formalidade, tão diferente da minha casa também italiana, mas de gente do sul, simples, honesta, barulhenta, intensa.

Nos sentamos na sala de estar. Falamos da escola, das professoras. Mãe e filha contaram dos planos de viajar para a Itália de navio, nas férias.

Meu coração invejava aquela cena, aquela mãe e principalmente aquela viagem distante.

Foi quando a mãe fez soar a tal sineta de prata, até então repousada, inerte, na bandeja igualmente de prata, que brilhava como um espelho.

Em resposta imediata ao tilintar da sineta, surgiu uma empregada toda engomada, traje preto completo, com avental e casquete de renda branca prendendo os cabelos.

Serviu-nos o chá com mãos cobertas por imaculadas luvas brancas. O som da sineta, a visão das luvas, a formalidade da cena, o ridículo daquela farsa extemporânea apagou de um só golpe o meu fascínio.

E me deu a certeza sobre de que lado eu estava na História.

ADORMECER

As risadas da claque da série de TV norte-americana vão sumindo aos poucos. Com elas se misturam os sons dos carros e ônibus ao longe, na rua. Imagens passam por mim em flashes desconexos. O marido faz uma observação, que fica sem resposta. Ele chega mais perto, puxa as cobertas e deixa parte do meu corpo quase inerte exposta ao frio da madrugada.

O bip bip das mensagens no celular não para, mas já não penso em lê-las. Adio as decisões importantes mais uma vez, e me entrego à moleza que lentamente toma conta dos meus músculos.

Ouço o pio de um pássaro e ainda tenho forças pra me perguntar que tipo de ave tem hábitos noturnos. Noto, consternada, que aquela dorzinha nas costas não passou. Em cascata de livre associação, penso naquela menina morta por câncer aos 33 anos, assim, de repente. Penso em marcar hora no médico e na conta negativa no banco.

Revejo em câmara lenta os fracassos do dia. Ainda me pesam os desentendimentos e os motivos da contrariedade voltam em rajadas que tento em vão apagar da mente.

Digo pra mim mesma que tudo há de se resolver no dia seguinte e, vencida pelo cansaço de um dia difícil, finalmente adormeço.

LAVAR AS MÃOS

Bons hábitos são tudo. Creio nisso como na luz do dia e na escuridão da noite. Por isso cumpro rigorosamente a cerimônia diária de higiene que, estou certa, me livrou, me livra e livrará de todos os males.

É a primeira coisa que faço quando acordo de manhã. Também me apresso a fazê-la assim que chego em casa, carregada de pacotes, afoita e sem ar, depois de subir quatro lances de escada.

Jogo tudo que me ocupa as mãos, o ombro, os braços, em cima do móvel da entrada e corro pra me proteger do mundo que trago comigo quando venho da rua.

Sinto um prazer difuso no cheiro de verbena que sobe da pia e inunda minhas narinas. Repito sempre que este é um luxo, mas como todo bom luxo, ele me é tão necessário! E desisto de comprar um produto mais barato para meu ritual de higiene.

Sou adepta dos prazeres. Com abandonar algo que me faz feliz? Não abandono, é claro, e gasto a fortuna no sabonete líquido importado pra sentir aquele cheiro do sul da França preenchendo minha vida paulistana e me livrando, com elegância, de todos os germes, amém.

O VÔO DA BORBOLETA

Todos pensam que ela é frágil. Quem sabe algo, tem certeza de que vive pouco e a admira justamente por isso, pela brevidade de sua existência.

Sua força está em sua delicadeza, qualidade rara nos nossos dias assertivos, barulhentos, explícitos.
Ou talvez esteja principalmente em sua beleza.

Sim, de fato, ela é acima de tudo bela, com suas cores e matizes surpreendentes. Ficamos vidrados quando passa por nós, hipnotizados pelos desenhos caprichosos de suas asas.

Mas se engana quem pensa que sua quietude e suavidade são sinais de fraqueza. Tive certeza do contrário quando vi um documentário sobre a migração das Monarcas, um tipo de borboleta que atravessa milhares de quilômetros, toda a extensão de um continente – a América do Norte – para procriar em uma floresta no cimo de uma montanha, no México.

Se há um lugar no mundo que eu gostaria de conhecer é essa mata, sagrada, abençoada, que recebe milhões de monarcas e as acolhe entre os ramos altos de suas árvores, na umidade de seu verde e no silêncio quebrado apenas pelo vento.

Queria estar lá de braços abertos para recebe-las
quando chegam de sua longa viagem, exaustas e belas.

A PROCURA DAS CHAVES

Experimente morar em casa grande. Muitas portas, janelas, cômodos. Se além da morada tem a sorte de ter outros imóveis, um na praia, outro na montanha, a casa da mãe, do irmão, está perdido! Todas essas casas, com suas portas, de entrada, de saída, do portão da rua, da garagem exigem chaves e mais chaves. Ou seja, exigem atenção, cuidado permanente para escolher o chaveiro certo e não perde-lo de vista jamais!

A estes molhos de chaves se somam ainda outras, do escritório, do consultório, da caixa de joias: uma profusão de chaves de tamanhos, formatos, modelos diversos. Chaves em lindos chaveiros, em chaveiros baratos. Chaves juntadas aleatoriamente por antigos barbantes. Pequenas, grandes, simples, trifásicas.

Antigas, modernas. A do malão de madeira maciça do meu avô tem duzentos anos e chegou no Brasil com a mudança de meus bisavós, vinda da Itália. É uma peça de museu, pesada, colonial, e ainda funciona. Esta é inconfundível, fácil de achar. O oposto daquelas pequenininhas, indistinguíveis, de cadeado.

Nunca acertamos a chave certa na hora de abrir o cadeado. Tem um no portão lateral, outro na porta de vidro da sala. Um terceiro na porta de entrada da praia. E nenhum deles parece funcionar. Permanecem imóveis diante das inúmeras tentativas frustradas.

Muito chata esta história de ter que fechar as coisas. Quero viver num lugar em que tudo possa ficar aberto, inclusive o coração.

ARREBOL

Arrebol me lembra pássaro em revoada, fim de tarde, pôr do sol. Brisa fresca, vida fácil, tarde mansa. Me traz visões da infância, poesia romântica, Castro Alves, Manoel de Araújo, Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Álvaro de Azevedo.

Os poemas reunidos nos três livrinhos da editora Lumen., de capa verde, vermelha e verde. Poemas românticos que me acompanharam tardes a fio, deitada no sofá, ouvindo a algazarra de meus irmãos e primos brincando. E eu perdida em devaneios dos quais minha mãe vinha me acordar, sempre com o mesmo bordão: “Larga esse livro, menina, e vai brincar lá fora, o dia está lindo!”

Arrebol me lembra suspiros, amores perdidos, lágrimas, saudades, sabiás. Segredos, crepúsculos, remorsos, súplicas, viajantes, murmúrios, queixumes, perdão.

Ele me traz dores de amores que eu ainda não tinha sentido, decepções e separações inimagináveis para uma garota de dez anos.

Arrebol tem cheiro de mato molhado, gosto de Curso Primário, cor de inocência perdida, de ilusão perdida, de vida tenra, há muito esquecida.

UM GOLE DE VINHO

Linda em seus 93 anos, ela seguia na velhice a mesma receita de saúde de seus tempos de menina: uma taça diária de vinho.

Convicta das qualidades da bebida tão antiga quanto a humanidade, minha avó seguiu firme pela vida. A todas as contrariedades e problemas respondeu com firmeza e serenidade. Amou os seus com generosa ferocidade. Trabalhou com a força de Hercules e descansou como um passarinho assustado, noites sem fim perdidas entre preces e preocupações quase nunca infundadas.

Dona de uma intuição infalível, anteviu terremotos e vendavais que arrastaram entes queridos e outros por nascer. Fez partos, organizou enterros, acompanhou doentes no hospital. Distribuiu comida a famintos, arranjou empregos, bordou enxovais.

Pariu filhos em casa, criou netos, aturou genros e noras. Mimou bisnetas. Teve varizes, caiu, fraturou o fêmur. Costurou vestidos de primeira comunhão.

Desobedeceu as ordens de minha mãe e me comprou os mais deliciosos sorvetes da infância, que tomávamos escondias, eu sentada na tampa da máquina de costura.

Minha avó consolou mulheres traídas, homens viúvos, fez compressa contra caxumba, sarampo, catapora. Cozinhou a vida inteira, macarrão, molho de tomate, carne de porco, de vaca, de cordeiro. Temperou tudo com inspiração, talento, paciência, abnegação.

Jamais visitou um ginecologista. Odiava fofoca e maledicência. Tinha poderes extraordinários. Benzia de quebranto como ninguém.

Quando chegou sua hora, me fez um único pedido: um gole de vinho, que lhe dei agradecida por poder retribuir neste gesto tudo o que ela por mim fizera em vida.

PÁGINAS EM BRANCO

Não tenho nada contra elas. Não me assustam, não me angustiam, nem atormentam. Gosto delas, tão brancas, prenhes de possibilidades, cheias de compreensão e paciência.

Podem ficar eternamente vazias, flutuando na estratosfera, sem nunca ser trazidas para este nosso mundo esquisito. E tudo bem.

Elas aterrorizam escritores em crise de criatividade, estudantes em provas de redação, mas a mim não causam aflição. Posso preenche-las com facilidade, como se outras mãos digitassem o teclado ou segurassem a lapiseira dourada.

Se permanecerem virgens ajudam o planeta, evitam que novas árvores sejam cortadas para dar lugar a novas páginas, de novos cadernos a serem preenchidos com inutilidades.

Mas sempre podem ser abrigo de sentimentos, equações ou descobertas científicas capazes de alterar nossa forma de viver.

Trazem em si, em seu vazio repleto de possibilidades, a esperança de um novo romance, uma obra prima, um desabafo ou uma revelação.

A CANETA TINTEIRO

Íamos pra escola carregando na mala o mata-borrão.

Mata o quê?

Mata-borrão. Era um pedaço de papel bem poroso que a gente usava pra limpar a tinta que vazava da caneta tinteiro.

Caneta que vazava? Como assim?

É, vazava, soltava tinta. A gente tinha que carregar também, além da caneta, um potinho de vidro cheio de tinta preta ou azul, para encher a carga da caneta. Era uma trabalheira danada!

E mesmo com todo cuidado a caneta vazava, estragava o estojo de couro, comprado a duras penas, sujava a blusa, deixava aquela mancha envergonhada no branco imaculado da blusa do uniforme.

Estojo de couro, uniforme! Puxa, vó, que irado! Mas por que voc6e não comprava uma BIC? Ia simplificar sua vida.

Ia, se ela existisse, como tudo mais que existe hoje e a gente nem sequer imaginava!

A GALINHA DO VIZINHO

Bota ovo amarelinho? Bota um, bota dois, bota cem, bota mil!!! A musiquinha da minha infância fala de um Brasil rural há muito soterrado por um país urbano, envergonhado de suas origens.

Esta vergonha de tudo que vem da roça me entristece. Quem somos nós se não a soma de nossa raiz, caule, flores e frutos? Que futuro teremos como nação se dermos as costas às nossas origens caboclas, ao nosso passado indígena, negro, imigrante europeu?

No entanto, é isso que fazemos, que fazem as mídias, estes tentáculos de um capitalismo mais que selvagem, pós tudo, este escravo do capital internacional, das mega-empresas fundidas e refundidas, o verdadeiro centro do poder!

Quem vive no campo está louco pra se mudar pra cidade, esquecer num segundo as cantigas, as lendas, os mitos, os laços de sangue e amizade, as festas religiosas e pagãs, a vizinhança, a avó desdentada e enrugada.

Pra trás ficam as cantigas, os pores de sol, o duro trabalho no campo. As frutas maduras no pé, os galos correndo atrás das galinhas, o burro de carga, as flores silvestres.

Pela frente, a periferia de uma grande cidade. Vizinhos craqueiros, encrenqueiros, escolas violentas, ruas violentas. Quatro horas sacudindo nas conduções. A medida diária de ilusão da TV e o sono intranquilo do progresso. Progresso?

BEBER DA TUA TAÇA DE VINHO

Beber da tua taça de vinho não é dar um gole em um copo de bebida qualquer. É estar próximo de você, sentir seu cheiro de manhã orvalhada, ouvir sua voz ressoar em minha alma como uma sinfonia de anjos.

Poder beber contigo é o privilégio máximo! Pousar meus lábios onde instantes antes tocaram os seus. Ouvir seus segredos, liberados pelo espírito do vinho, secar suas lágrimas com minhas mãos trêmulas e rir de suas piadas desajeitadas.

Sei que meu amor nunca encontrará espaço maior do que este em sua vida, mas não me importo. As migalhas de sua atenção são o banquete que alimenta minha vida de monge enclausurado.

COLHER A MAÇÃ NO PÉ

Nunca mais verei o espetáculo matinal de pássaros em revoada, alegres por encontrar alento nas sombras de árvores frondosas e frutíferas!

Não poderei acompanhar a laboriosa construção dos ninhos, o chocar dos ovos e a mamãe pássaro ensinando os primeiros voos aos pequenos aterrorizados, no alto da mangueira.

Colher a maçã madura, reluzente como o chão encerado da minha casa. A cena ficará grudada na memória com Araldite.

A bananeira, dona de cachos saborosos e verdes como esmeraldas. A laranjeira com suas flores a encher de magia as noites de verão no velho sobrado.

Isso é passado.

A empreiteira comprou o terreno ao lado do nosso. Uma antiga chacrinha repleta de insetos, frutos maduros e perfumes de flores e rouxinóis.

As máquinas entraram na surdina, de madrugada, e quando acordei não havia mais nada no quintal, só o voo rasante dos sabiás, desesperados à procura dos ninhos.

DAR O LAÇO NO VESTIDO DA MENINA

Me demorei naquele gesto, saboreando cada segundo como se fosse a última mordida no pedaço da torta favorita.

Daniela estava com pressa e se impacientava com minha demora. Afinal, era só pra contornar a cintura, dar um mísero lacinho no vestido da primeira comunhão.

Mal sabia ela que dar este laço me transportou no tempo, em longa viagem por regiões há muito devastadas pela passagem do tempo.

A cada volta do tecido correspondiam décadas de alegrias, tristezas e expectativas.

Vi minha mãe onde estou agora. Vi minha avó, onde antes esteve minha tia. Gerações de mulheres da tradicional família italiana, unidas pelo temor a Deus e a obediência estúpida aos maridos e convenções.

Tive vontade de buscar a tesoura, cortar os laços, rasgar o vestido e dizer a ela que saísse correndo e não fosse à cerimônia inútil, organizada pela igreja para manter sob seu controle aquelas jovens meninas, cheias de vida e de desejos!

PASSAR BATOM

Passo meses sem usar maquiagem. Não tenho paciência pra isso. Os minutos perdidos em frente ao espelho, o esforço inútil de recuperar a juventude, parecer bela.

A pele enrugada não facilita a tarefa. O rímel esquecido no fundo da gaveta perdeu a validade e a oleosidade. Está ressecado e não adere aos cílios cada vez mais brancos. As sombras me confundem com suas cores acobreadas, não sei qual escolher e termino por não usar nenhuma.

O blush deixa minhas bochechas ardentes de menopausa mais vermelhas ainda e pareço um palhaço prestes a entrar em cena.

A mão treme e o delineador faz uma curva irregular e oblíqua, e fico com cara de marionete.

O espelho de aumento me mostra tudo o que não quero ver: mais rugas, mais manchas, sinais indeléveis da passagem do tempo pelo meu corpo. Mas minha alma, de menina, não se identifica com aquela imagem. Aquela não sou eu, não mesmo!

O tempo escorre como um carrasco dentro do banheiro. Os homens da casa se impacientam.

Calma, só falta passar o batom!

Sem eficiência ou vontade, desenho um círculo de fogo, tentando em vão acompanhar as imperfeições daquela boca que não me pertence.

COMO SE…

Tudo se transformou num instante. O que eu vivera até então de repente cessara de existir: a casa confortável, ensolarada, aberta para um campo de futebol gramado, que terminava em árvores frutíferas plantadas por mim.

Os brinquedos espalhados pela garagem transformada em play ground, a balancinha e as redes amarradas nas árvores. A goiabeira. O ipê rosa explodindo em flores perfeitas!

As lajotas marrons do piso, os sofás confortáveis, as mesas de madeira antiga. Os tapetes iranianos e turcos, o artesanato mineiro.

A comida farta do fogão de seis bocas. As máquinas de lavar, de secar, as mangueiras de água sempre ligadas contra a secura do serrado.

Os amigos conquistados em terra estranha. As crianças dos vizinhos pulando os muros e entrando sem tocar a campainha. A rua sem saída e os meninos correndo de bicicleta, de patins, felizes, alheios ao meu drama, ao sofrimento impossível de carregar.

Foi como se um terremoto engolisse o Planalto Central e junto dele meu mundinho desaparecesse numa fenda monstruosa.

Saber, ser forçada a ver, adquirir consciência. Inevitável, inadiável, necessário.

Mas como dói!!!

ABRIR O PORTÃO AS 11 DA NOITE

Dá medo. Dá paúra. Uma coisa tão simples, um gesto cotidiano, sem nada de mais: chegar em casa depois do show, embicar o carro na garagem, descer deixando a porta aberta, levantar a porta da garagem, retornar ao assento, fechar a porta do veículo e entrar em casa. Descer de novo do carro, fechar a garagem e pronto! Sem dificuldade, sem mistério.

No entanto…

Tente fazê-lo em São Paulo, em 2016, numa rua deserta e escura porque as lâmpadas queimaram na última chuva e a prefeitura ainda não consertou.

Tente fazê-lo sendo você mulher e bem informada. Você sabe que os assaltos no bairros aumentaram com a crise. Está a par das invasões às casas na rua de cima. À tentativa de assalto frustrada pelo guarda noturno.

O vizinho te contou sobre os homens que invadiram seu quintal, expulsos pelo alarme disparado. Semana passada o vigia do outro quarteirão foi rendido. Levaram a moradora da casa em frente da guarita num sequestro relâmpago.

Você mesma foi vítima deste golpe no ano passado. Os dois rapazes bem vestidos chegaram de mansinho, mostraram a pistola e entraram no carro. Rodaram por duas horas até sacaram dinheiro de todos os cartões.

Lembra? O terror de ser parada pela polícia, de ser atingida por uma bala perdida? De ser levada para um cativeiro imundo e infestado de baratas?

No final deu tudo certo. Eles te deixaram perto de casa, numa rua deserta como a sua, e ainda desejaram boa sorte. Vá com Deus, disse o mais simpático dos dois. E eu pra ele – vá você, que precisa bem mais dele do que eu, com esta sua profissão de risco.

QUEBRAR O OVO E ENFIM LEVA-LO A FRITAR

Como fazer um omelete sem quebrar os ovos? Esta lição, simples, fruto da mera observação, deveria ser aprendida por toda gente.

Realizar um desejo sem abrir mão de nada? Conseguir um pequeno milagre sem esforço, sem abnegação? Impossível.

É preciso dar para receber. Abrir mão. Romper, aceitar ir de um estágio a outro. Não há chegada sem partida. Manhã sem noite, inverno sem verão. Sol sem lua.

Curioso como poucas pessoas observam a natureza, compreendem os mecanismos do universo, as leis gerais que nos regem.

Somos fruto de uma explosão. As estrelas que vemos já estão mortas. A luz que nos chega é seu último adeus. Tudo em movimento, interconectado, fundido pelo mesmo destino – a extinção.

No silêncio profundo do universo, imersos em viagem cósmica partilhada, seres animados e inanimados dividem as mesmas partículas, a mesma origem.

Somos irmãos.

A PEDRA, O AÇO E A PÉTALA

Suavidade é o bálsamo da vida. Que maravilha seria vivermos rodeados da maciez da pétala da rosa, do algodão, da paina, do veludo. Todos teríamos abrigo, conforto. Dormiríamos embalados por cobertores levíssimos.

Nada nos pesaria.

Nem as dívidas, nem as contas, nem os juros escorchantes.

Seguiríamos nossos corações e faríamos apenas o que nos dá prazer, entregues de bom grado ao trabalho escolhido, não imposto.

O amor seria a norma. E o aço das armas, depois de derretido, seria entregue aos artistas e enfeitaria o passeio público.

Todos os seres receberiam cuidados e respeito. Seriam valorizados pelo que nos ensinam, elo que temos em comum. Nós e natureza, irmanados como tem que ser.

A contemplação aprendida com a pedra. Comunhão total entre tudo e todos.

A LÂMINA

Ele tinha 24 anos e escolheu morrer.

Os apelos do pai, da irmã, das tias, dos avós, foram em vão. Psiquiatras, psicólogos, terapeutas, professores, amigos, namorada. Ninguém debaixo dos céus infinitos de Brasília foi capaz de demove-lo. Ele queria morrer.

A faculdade de Engenharia. O corpo perfeito, a beleza de traços. A doçura de caráter. Suas qualidades não foram suficientes para convence-lo.

A vida era insuportável. A morte era a noiva desejada, ansiada, amada.

A mãe se matou quando ele era pequeno. E desde então, em segredo, ele também desejou morrer. A cada humilhação sofrida no colégio, ele desejava morrer. A cada desapontamento, pequeno fracasso, dificuldade, ele chamava pela morte.

A internet trouxe muitas informações úteis, que não foram capazes de prever a má sorte de ter sido encontrado, ainda com vida, pelo caseiro do sítio.

O escândalo, o sofrimento do pai, o desespero da irmã, as acusações da tia só pioraram a situação. Ele passou a ser vigiado pela família. Foi obrigado a frequentar sessões intermináveis de psicoterapia, a tomar drogas legais.

Ele não queria falar. Queria apenas morrer. Desaparecer para sempre desta Terra infeliz e encontrar o silêncio eterno dos astros.

A vergonha de ter falhado em algo tão importante era insuportável. Afinal, tudo fora planejado milimetricamente.

Ele agradeceu ao pai pela atenção, pelos esforços por mantê-lo vivo, bem alimentado, aconchegado. Mas ele queria muito morrer, não tinha jeito.

Afinal, após meses de encenação para convencer o pai de que estava bem, recuperado, foi finalmente deixado sozinho. E desta vez ele conseguiu.

Quando soube nem liguei pro meu amigo. Não tinha o que dizer. As palavras perdem o sentido diante de tragédias. Depois, quando enfim nos falamos, consegui formular o que me parece ser verdade: temos o direito de escolher como viver e como morrer. E meu amigo concordou.

AS LUZES

As luzes apagam as estrelas e abrem a possibilidade da vigília eterna. Nos fazem trabalhar mais, melhor, por mais tempo.

Elas nos mantêm ligados, conectados ao exterior. Nos trazem o mundo, nos fazem ver detalhes. Confundem o dia com a noite, retardam o necessário repouso.

Meus avós já viveram com luz elétrica. Há gerações perdemos o contato com o fogo, com sua quentura, com seu silêncio, seu calor.

Cidades grandes, como a minha, são ciladas iluminadas e barulhentas. Labirintos de almas aflitas e solitárias, incomunicáveis.

A falta de luz deixava os humanos descansarem. Trazia o medo e com ele a união, o contar histórias, o aconchego. Dava à humanidade a experiência do silêncio.

A LÁGRIMA

Tão bom chorar! Lava a alma!

Choro quando vejo publicidade de fralda de nenê. Em quase todos os filmes dramáticos, quando vejo notícia triste na internet, no jornal, na TV.

Choro se me contam algum drama. Choro de pensar na fome e na injustiça do mundo, na fome, no drama dos refugiados.

Choro pelos mortos na nossa guerra civil velada. Choro pelas mães que perderam seus filhos e pelos filhos sem mãe. Choro pela derrubada das árvores, pela matança das baleias, dos golfinhos.

Choro pelos efeitos do gás estufa, pelo derretimento das geleiras, pelos animais aprisionados e seres humanos traficados. Choro por todas as guerras, justas ou não. Pela destruição da natureza em nome da ganância. Pelo trabalho indigno dos mineiros, pelos explorados no campo e na cidade. Por quem precisa vender o próprio corpo pra sustentar a família.

Derramo lágrimas pelos doentes incuráveis, pelos aflitos, pelos solitários, pelos prisioneiros. Choro de raiva diante de qualquer injustiça. E de emoção ao presenciar cenas de amor verdadeiro ou gratuito. O pôr do sol me comove, é a hora mais linda e triste do dia.

Fora isso, e apesar de tanta choradeira, gosto mesmo é de rir. Levo a vida sorrindo, gargalhando sempre que possível. A saúde agradece.

QUANDO DÃO DE PRESENTE A VOCÊ…

Quando dão de presente a você um celular, não estão dando somente um telefone. Dão uma eterna chateação – uma prisão da qual você nunca será capaz de escapar.

Um celular significa toda a tecnologia – a passada, a presente e a futura. Quer dizer que você nunca será capaz de decifrá-lo. Quando começa a adivinhar como funciona, a empresa te obriga a fazer o upgrade, e aí começa tudo de novo, do zero.

Quando você ganha um celular, ganha uma coleira atada permanentemente ao pescoço, ao pulso, aos olhos, à cabeça.

Quando te dão algo assim de presente, quer dizer que querem te controlar, saber onde está, o que está fazendo, que não atendeu seus chamados?

Te dão uma nova agenda de contatos, uma nova calculadora, a possibilidade de saber a temperatura em Reikjavic, de fazer todos os cálculos que nem Einstein conseguia.

Ganhar um celular é como ser condenado à eterna atualidade, ao conhecimento incessante e superficial, à praticidade inquestionável de sua lupa, de sua lanterna, de seus informes sobre o desempenho da Bolsa de Valores.

Você pode customizá-lo, fazer com que atenda mais ao seu gosto, mudar intensidade da luz, trocar as musiquinhas, personalizar os toques.

De posse de seu novo presente, você pode falar com mundo inteiro, saber tudo o que os mais completos dicionários e enciclopédias levaram milhares de anos para compilar.

Com ele você pode tudo, menos ter um instante de paz!

QUANDO DÃO DE PRESENTE A VOCÊ…

Quando dão de presente a você algo que te inspira, ensina, emociona, entretém, dão um tesouro de valor infinito. Ganhar bem tão precioso é como ganhar na loteria, sem ter que pagar imposto de renda ou lidar com a legião de falsos amigos. Uma boa história é o melhor dos regalos.

Quando dão de presente a você a oportunidade de viver mais duas décadas, como retribuir? O acerto do diagnóstico, a intervenção cirúrgica milimétrica, os cuidados do pós operatório. A cada um dos anjos que iluminaram a equipe médica que me salvou daquele câncer eu agradeço agora, na hora da minha morte.

Quando dão de presente a você traição, mentira, abandono, ingratidão, falsidade, desprezo, desamor, desrespeito, te dão também a oportunidade de recomeçar a vida. Merece gratidão aquele que de tanto fazer o mal, acaba sem querer trazendo o bem.

Quando dão de presente a você algo supérfluo, é quando você mais gosta. No reino do utilitarismo, que alívio receber algo inútil, mas belo!

Quando dão de presente a você a compreensão de algo transcendente, é com humildade e gratidão que deve aceitar tão valioso carinho. Sabê-lo útil para o bem viver e distribuir este conhecimento é uma das maiores alegrias da vida!

Quando dão de presente pra você uma amizade verdadeira, destituída de interesse ou vaidade, você deve agarrá-la como o náufrago a boia salva vidas. Encontros assim merecem ser cultivados como a mais rara das orquídeas.

Quando dão de presente pra você a notícia de que o exame deu negativo, sua reação é contraditória: deveria estar aliviada, mas não. Pensou que se alegraria, mas uma tristeza espessa domina seu coração. Só então percebe o quanto amava aquele homem e, no mais íntimo do seu ser, desejava aquele filho tardio.

Quando dão de presente a você a possibilidade de escolher, dão junto com ela a agonia da indecisão. A possibilidade do erro, a inefável alegria do acerto. Liberdade dá trabalho, não vem com bula e sempre apresenta contraindicação.

Quando dão de presente a você esta viagem, pagam barato demais pelo alumbramento de conhecer uma terra ainda virgem, liberta dos homens e suas sujeiras. Ganhar céus límpidos, mares gelados e revoltos, montanhas de geleiras azuis, rodeadas por baleias e habitadas por pinguins é o máximo! Como é bela a Patagônia, mais bela ainda se é de graça!

Quando te dão de presente a visão da baleia mãe amamentando seu filhote a poucos metros da praia, você é invadida por uma emoção do tamanho da Jubarte. Ela vigia a cria com redobrada atenção e, a poucos metros dali, na praia catarinense, você reza pra que mãe e filho cheguem a salvo à Antártica, na volta.

Quando te dão de presente aquele pedaço de pano amarelado, bordado com miçangas já sem brilho, você se emociona. Tocar naquele pedacinho de tecido que por sua vez cobriu, em algum momento do passado distante, a pele de sua avó é emocionante. Transformá-lo num colar e usá-lo no casamento da melhor amiga, encantando a todos, é transmutar saudade em beleza.

INSTRUÇÕES PARA RIR

Primeiro, deixe-se ficar, sem ansiedade ou expectativa, diante da tela da TV. Apague da mente as preocupações do dia: o carro quebrado, a chegada da sogra em horário impróprio, o salto quebrado na escada rolante, o ralo entupido do banheiro.

Lembre-se de ligar o ar-condicionado antes de entrar no banho, vista um roupão folgado, pegue o sorvete de macadâmia no freezer, sente-se no sofá, puxe a almofada de girafas vermelhas e procure o canal Comedy Central no dial.

Depois, relaxe completamente. Deixe de lado seus pudores, a mania de ser politicamente correta, e embarque na apresentação, em inglês, daquele comediante negro e desbocado, e durma finalmente refestelada no sofá, depois de ficar com a barriga doendo de tanto rir!

INSTRUÇÕES PARA PULAR ONDA

Esqueça o medo do infinito. Respire fundo o ar limpo, cheio de sal. Não se intimide e, mesmo se a água estiver fria, não desista! Vá entrando de mansinho, sem pressa, deixe seu corpo se acostumar com a nova temperatura.

Em passos lentos e seguros, ande mais alguns metros, até que a água revolta chegue à cintura, não mais que isso. Certifique-se de que não há redemoinhos ou buracos perto de onde está posicionada. Estude a força dos ventos e a direção da correnteza. Mergulhe rapidamente pra molhar os cabelos e mantê-los longe dos olhos.

Comece a pular as sete ondas calmamente, uma, depois outra, e mais outra. Até chegar a sete, como mandou a mãe de santo. E então, superando seu pavor do mar, deixe-se ficar por muito mais tempo, as ondas fortes batendo no seu corpo, livrando dele o mau olhado que roubou seu amado e afastou a alegria de sua vida.

INSTRUÇÕES PARA MORRER

Quando achar que é hora, não ouça conselhos, nem olhe pra trás. Não se perca em choramingos ou emoções baratas. O que foi, foi, não é mais, e nada fará o tempo parar ou voltar. São as leis da Física e da vida.

Certifique-se que os filhos estejam viajando e não possam chegar de surpresa. Escreva uma longa carta de despedida, enaltecendo a beleza e o aprendizado da vida vivida ao lado deles, dos netos, noras, genros, irmãos e amigos.

Diga e repita que sua decisão não tem nada a ver com qualquer coisa que lhe tenham feito. Ela é fruto de sua vontade, enquanto você ainda consegue obedece-la.

Esclareça o diagnóstico médico, descreva a doença e seus efeitos inevitáveis e indesejados. Fale sobre livre arbítrio, do direito que tem de tirar a própria vida, antes que ela se transforme em fardo pesado demais para a família.

Tente aliviar a dor de todos ressaltando o quanto você foi feliz, como viveu uma vida longa o bastante para conhecer dois bisnetos e boa o bastante para já ter viajado, comido, comprado, provado tudo o que lhe apetecia e o dinheiro podia lhe dar.

Indique onde está o testamento e dê instruções sobre onde será cremada, como será a cerimônia em que suas cinzas serão espalhadas em seu refúgio predileto, na praia.

Agradeça por todos e tudo. Deixe apenas palavras de incentivo e júbilo. Acenda um incenso de mirra. Ponha aquela música pra tocar.

Ajeite o vestido branco no corpo e tome, confiante, o veneno que garante morte rápida, indolor e certa.

RECÉM CHEGADO

Foi na manhã de domingo passado quando ouvi pela primeira vez aquele som. Não era de gente, não parecia ser de pássaro, nem de mamífero ou de réptil.

Meu marido arriscou: parece ser um tucano, e a sugestão gelou minha alma. Seria aquele som produzido por uma criatura recém comprada por um vizinho? E eu estaria, a partir de então, condenada a conviver com aquela agonia? Já me via denunciando a presença do animal silvestre ao Ibama, causando comoção e rebuliço.

Rezei para esta hipótese não ser verdade!

Nasci e sempre vivi em casas em bairros arborizados. Tenho no meu terreno um tesouro vegetal composto de bananeiras, amoreiras, jabuticabeiras, laranjeira e um pé de mexerica ciclotímico. Estou, portanto, acostumada a conviver com bichos.

Meu jardim foi plantado, ao longo dos anos, pelos sábias, beija-flores, maritacas, sabiás laranjeira, morcegos e outras espécies que habitam meu quintal. Com eles convivo há décadas, na mais completa harmonia.

Verdade que me acordam de manhã cedo com sua algazarra, que os morcegos às vezes me assustam quando deixo as janelas do banheiro escancaradas e eles passam por mim em voo rasante, no escuro.

Minha convivência também é pacífica com as lagartixas, as lesmas enormes que escorregam pelo jardim, com as abelhas, os vaga-lumes e cigarras que habitam meu terreno, também um porto seguro para os gatos da vizinhança, pois sou a única na quadra a não recorrer a cachorros para vigilância.

Não alimento os gatos, os pássaros ou qualquer outro hóspede do reino animal. Cada um com seus problemas. Mas dou a eles um território de paz, onde podem relaxar ao sol e se abrigar na chuva. Guerra total e sem tréguas apenas contra baratas e mosquitos.

Mas aquele som, aquela súplica metálica está me deixando louca! Começou domingo e hoje é quarta-feira. Por horas a fio minhas manhãs estão sendo inundadas pela ansiedade, pela súplica do seu chamado.

Anos de prática jornalística esclareceram algumas dúvidas. Meu novo e irritante hóspede não é um tucano, nem vive acorrentado em algum quintal vizinho. É um pássaro pequeno para o barulhão incômodo que faz: é uma araponga macho que sabe lá Deus porque caminhos tortuosos chegou à Vila Madalena numa ensolarada manhã de domingo e desde então chama por sua fêmea, em vão.

O caseiro do vizinho, versado em assuntos da roça, nomeou o recém chegado e tirou algumas de minhas dúvidas. Disse que ele nasce preto e vai ficando branco e que nasce um macho desta espécie a cada 50 ninhadas! Agradeci a Deus por mais esta sabedoria da natureza. Já pensou multiplicar por cinquenta a agonia de seu canto?

Não tenho palavras para definir aquele guincho metálico, alto, repetido à exaustão. A agonia que meu visitante divide comigo domina minhas manhãs. A cada nova súplica, meu coração se aperta e me pego pensando em abandonar a casa e viajar para o exterior para escapar da tortura!

Em lugar de desejar o desaparecimento súbito ou até a morte de meu novo vizinho, vou focar no positivo e buscar uma fêmea para o macho solitário. Quem sabe eles partem juntos para a mata distante de onde ele veio, talvez expulso por mais árvores derrubadas pela ganância ou pela miséria, a outra face da mesma moeda.

ESPELHOS

A visita de cerimônia chegou e ofereci meu quarto, acompanhado pelo melhor banheiro da casa. E me vi usando o velho e enorme banheiro verde de granilite pela primeira vez em muitos anos.

Me vi é o termo exato e o moto inspirador desta crônica.

De caso pensado coloquei, anos atrás, um espelho caríssimo, de pé, em posição estratégica em relação ao espelho do armarinho em cima da pia, para que pudesse me ver de costas.

Mas depois reformei a casa, construí um novo banheiro, mais eficiente e moderno, e releguei meu jogo de espelhos ao esquecimento.

Daí o susto quando vi meus braços balançando como gangorra ontem de manhã.

Faz calor, vesti algo sem mangas, cavado, e escovava os dentes depois do café da manhã, como sempre. Inocente, alheia ao meu processo de envelhecimento galopante, escovava meus dentes e pensava na vida, alegre, leve, distraída.

Foi então que olhei no espelho e me vi de costas, os braços magros e flácidos, assim conservados por minha consistente ojeriza à ginástica e aos movimentos repetitivos de qualquer espécie.

Fiquei paralisada. Congelei bruscamente o movimento que denunciava, em seu imediatismo, o passar dos anos e meu inegável envelhecimento. A cada movimento das mãos que seguravam a escova de dentes, a matéria flácida de meus braços dançava no espelho chique, de design.

Fechei os olhos, contei até dez, joguei água na cara, nos pulsos. Não olhei mais para o espelho em frente, nem para o de trás.

Resiliente, decidi ignorar aquela visão terrível, surpreendente, indesejada. Nada pode ser feito para alterar a verdade. Dedicar horas do meu dia à exasperante atividade da musculação fará apenas retardar um pouco mais a agonia. Não me agrada, não vale a pena! Prefiro ler um poema, visitar uma amiga, me perder em devaneios pelas vielas da Vila Madalena.

ORQUÍDEAS

Elas floresceram todas ao mesmo tempo. Abri a janela, olhei para fora e lá estavam: brancas, violetas, amarelas, gritando de alegria ao sol da manhã!

Ao longo dos anos foram sendo amarradas, com displicência, ao redor dos troncos finos e grossos das árvores do jardim. Lá elas repousam o ano inteiro, expostas ao sol, ao vento, ao frio, ao calor.

Daqueles talos aparentemente estéreis nascem como por milagre as flores mais lindas, trazidas nos braços da Primavera.

Vivem esquecidas no meu jardim, gestam a beleza em humilde silêncio. Não exigem cuidados especiais. Ficam lá, em repouso. E de repente, BUM! Dominam o jardim com a beleza inegável de suas flores.

Não falo com elas, não presto atenção. Elas retribuem meu alheamento com alumbramento, dividem conosco sua gratuita beleza.

ELA É ELZA

Elza Soares é mulher, velha, negra, nascida de mãe lavadeira e pai operário, na comunidade Moça Bonita, em Padre Miguel, Rio de Janeiro, no começo do século passado.

Elza Soares é uma deusa, um mito capaz de se reinventar, uma fênix atemporal, sintonizada com o futuro e o passado, aberta ao presente com integridade, intensidade e paixão.

Vinda do “planeta fome”, passou por tudo e todos mantendo sua identidade, sua arte, seu amor intactos. Problemas na coluna a fazem permanecer sentada o tempo todo. Ela mal se mexe, parece resfriada. Não importa. A cortina levanta e lá está ela, rainha poderosa, em seu trono, cabelos enormes e vermelhos, redes de Iemanjá partindo de seu corpo e tomando a escadaria em cima da qual permanece hipnotizando a plateia, que uiva e aplaude de pé antes mesmo que comece a cantar.

O show, no SESC Pinheiros, se chama “A Mulher do Fim do Mundo” e reúne jovens talentos da cena alternativa paulistana e esta senhora carioca. Em simbiose perfeita.

Na plateia jovens uivam, gritam, aplaudem esta incomum união de talentos tão diversos, tão iguais. Energia divina eletriza palco, músicos, cantora e plateia.

Iluminação e cenário são lindos, como linda é a diva sentada, cantando canções modernas, feitas pra ela por jovens com idade para serem seus netos, em perfeita sintonia e emoção.

Inesquecível este encontro de uma mulher que não tem idade, desconhece o temor e detesta a mesmice, a covardia ou a comodidade.

Ela eletriza o teatro, domina a plateia e os músicos. De imediato, somos todos súditos desta dama negra, encantada. Sua voz, rouca, ainda potente, fala do drama das mulheres que apanham e não devem calar. Da carne negra – a carne mais barata do mercado – do coração do mar, do amor de mãe, do travesti Benedita, do prazer sexual em “Pra Fuder”. Canções feitas para ela, que hipnotiza, eletriza a plateia, trazendo na voz a marca de nossos dramas sociais e políticos.

Corajosa, inovadora, transgressora, Elza traduz o Brasil. Ela terminou o show cantando “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!”. Veio, viu, cantou, venceu e nada mais precisava ser dito. Ou cantado.

1 responder

Trackbacks & Pingbacks

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.