Casa velha

Moro em casa, sempre morei. Gosto de não ter ninguém amando, odiando, andando e otras cositas más em cima ou abaixo de mim.

Tenho tolerância zero para brigas de casais ou agressões familiares de qualquer ordem. Então, para espanto geral, continuo morando em casa, com muro baixo, no coração de São Paulo.

A casa é dos anos 40, uma das primeiras construídas num loteamento da companhia City, empresa inglesa que planejou bairros inteiros em uma São Paulo de outra era. E como qualquer senhora setentona, minha casa tem segredos e achaques.

Portas e janelas são caprichosas, exigem intimidade e sutileza. Não fecham ou abrem ao toque estranho. O encanamento no teto faz barulho, reclama quando falta água e geme quando ela volta. Os vitrôs basculantes da cozinha não fecham direito, nunca fecharam, graças às inúmeras demãos mal dadas de tintas ao longo dos anos.

Ela não tem gás encanado – imagine! – mesmo estando em bairro chique. O chuveiro do banheiro antigo – uma salle de bain toda em granilite, com um desenho de cavalo marinho no piso – deixa muito a desejar.

Mas não posso e nem devo reclamar da minha velha. Ela me dá sol o dia inteiro e atrai com suas árvores frutíferas bandos de pássaros que me acordam em sua algazarra.

Da varanda de cima do sobrado vejo um glorioso pôr do sol. E o ano inteiro colho flores e frutas do quintal. Um verdadeiro luxo. Conheço milionários que não gozam dos mesmos privilégios! E sou grata por viver numa casa como as de antigamente.

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