Bye bye

Foram-se os sonhos e a esperança de tudo se ajeitar. Foram-se os filhos e os netos ainda não vieram, mas ficou a mãe idosa para cuidar. Geração azarada esta minha: pagou a conta da utopia irresponsável e cresceu esmagada pela falta de liberdade. Ficou emparedada entre o machismo dominante e o feminismo insipiente. Entre os filhos que não saem e os pais que não se vão mais tão cedo como antigamente.

Os objetos desejados perderam o sentido. O enorme guarda-roupa abarrotado de quimeras de algodão, de pura lã.

As viagens colecionadas em álbuns nunca folheados, encerrados em caixas de plástico, guardando a poeira que ninguém aguenta mais limpar.

Tudo em volta parece desmoronar lentamente, em agonia perpétua. As contas crescem, se avolumam como os buracos no asfalto vagabundo.

Os fios se multiplicam nos postes sem lâmpadas da minha rua, onde carros são roubados e folhas se acumulam nos bueiros para serem regurgitadas na primeira chuva.

Das torneiras sai uma água esbranquiçada, que se acaba toda tarde. Faz trinta graus em pleno inverno e os mosquitos, infectados de dengue ou não, zumbem nas noites insones e acaloradas de minha menopausa.

Até agora não encontrei tempo para escrever. Tudo vem antes. Todos vêm antes. A vida acontece e ela é mais forte que meu desejo pela escrita.

Ele vem em ondas mas vai embora com a urgência do médico da minha mãe, do dentista, da farmácia, do consolo que a amiga precisa.

Acabou o queijo, o edredom está na lavanderia. Começou a liquidação imperdível, é preciso buscar a roupa no conserto e passar pelo florista em busca da beleza efêmera das flores que enfeitam meus dias.

Deus sabe quantos livros mentais escrevi nestes anos jogados no lixo em nome da ambição, da ilusão, do dever.

Nas caminhadas forçadas, diárias, escrevi. Nas noites insones, ensopadas de calor, escrevi. No café sem palavras, nas estradas, nos momentos de crise e dor, escrevi romances fabulosos que permanecem inéditos, conhecidos apenas por meu coração, mortos no ventre da minha alma, assassinados pela preguiça, acovardados pelo excesso de mensagens escritas, mergulhados no medo da irrelevância.

Assim passou toda uma vida. Vivi sussurrando palavras em voz baixa, burilando sentenças repetidas inutilmente, escrevendo romances mentais de sabedoria e profundidade desperdiçadas e inúteis.

Agora me invade o desejo de experimentar, de digitar na tela iluminada as bobagens que tenho ruminado a vida inteira.

Tenho vontade de vomitar cada uma das palavras guardadas com o orgulho tolo das virgens honradas e azedas.

Vontade de nomear as sensações, esquadrinhar a alma dos personagens. Inventar lugares, cruzar desertos e mares, acampar nas savanas da minha alma e gritar bem alto minhas quase verdades.

Justo agora me vem esta explosão de criatividade, esta fonte inesgotável de palavras que jorram dos meus dedos e se derramam na tela acolhedora e impiedosa.

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