Bisavô, vô velho

Por: Klaus Kleber

Nunca vi minha bisavó Catarina, originária da região dos Abruzos (Abruzzi), na Itália Central, sentar-se à mesa. Ela ia diariamente à casa de minha avó Filomena e meu avô Rafael, chegando algum tempo antes da hora normal de almoço. Na espaçosa cozinha, com o forno a lenha sempre a arder, ela se sentava em banco duro de madeira e conversava, no seu dialeto incompreensível, com minha avó. Preferia ser servida ali mesmo.

Comia com o prato na mão e, com gestos com os dedos, recusava outras porções que lhe eram oferecidas.  Dava uma silenciosa bênção aos seus bisnetos que lhe beijavam a mão e às vezes lhes oferecia caramelle, como chamava aquelas as balinhas que tirava de um bolso ou de uma dobra da saia rodada. 

 Ela aparecia depois, no final da tarde, para tomar um café com leite, acompanhado de biscoito feito em casa, e suponho que, por causa dessa dieta restrita, a “vó velha” — como a chamávamos para distingui-la da avó que considerávamos a de verdade –, era tão magra. Outra coisa que não esqueço é o pano que ela trazia amarrado à cabeça. Não chamaria aquilo de véu ou de echarpe; seria mais um lenço grande de algodão, uma espécie de bandana, de cor branca, cobrindo da testa à nuca e terminando em laço.

Essas parcas recordações que tenha de minha bisavó, completada por outras informações que obtive muito mais tarde, me vêm à mente depois de eu me ter tornado, para minha surpresa existencial, bisavô. Minha bisneta Elis, filha de minha neta Bruna, fez dois anos em agosto e, nascida no Rio, mora hoje em Florianópolis. No Rio, era mais fácil visitá-la, Florianópolis é um pouco mais complicado, e a vejo mais quando e os pais, vêm a São Paulo.

Noto nela certa confusão. Seu avô é meu filho Vinícius, a quem ele foi ensinada a chamar de vovô. Isso, parece, ela já entendeu, mas quando sua mãe me chama de vô, noto uma expressão de estranheza e curiosidade nos olhinhos de Elis. Afinal, o vovô não é aquele outro, pai da mãe, e que ela vê com mais frequência?  E o outro?  Ela não matou ainda essa charada. Afinal, que avô sou eu?  Provavelmente sua cabecinha só resolverá o problema só muito mais tarde.

Talvez como eu e meu irmão Afonso fizemos com a velha camponesa dos Abruzzi, vinda para o Brasil para se casar com meu bisavô, que era oleiro e ajudou a construir Belo Horizonte, poderá me chamar de “vô velho”, se a passagem do tempo permitir.

Avô velho é redundância. Todos os avós são velhos, independentemente da idade. Há muito me acostumei a ser chamado de vovô, afinal tenho seis netos, filhos de três dos meus seis filhos.  O número de netos pode, portanto, ainda dobrar. E, quem sabe, poderei ver mais bisnetos, a quem distribuirei, se tiver a oportunidade, umas balinhas tão doces quanto as que eu recebi de Catarina.

(Depois de escrita essa crônica para o portal Avosidade, adquiri, se assim posso dizer, mais dois bisnetos – o louro tratorista Gael, que derruba tudo a seu alcance e que não deixa por isso de ser amado e perdoado, e a doce Maria Lua, uma luminosa belezinha que não estou podendo apreciar em razão dessa terrível pandemia).        

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