Avô Patrão

Baixinho, gordinho, careca. Pele clara, rosto redondo. Sua cabeça, sempre coberta por boina ou chapéu, brilhava como o chão encerado da nossa casa. Metódico, avesso a mudanças, usava sempre as mesmas roupas: calça cinza de lã presa por um cinto surrado de couro, camisa branca, agasalho verde escuro, chinelos que arrastava pelos tacos. Só saía para ir ao trabalho, sempre de terno escuro.

Irascível, cheio de certezas e princípios, se entregava com frequência a ataques de cólera que faziam tremer a vizinhança. Obcecado com pontualidade, nunca soube o significado do verbo contemporizar.

Fazia suas próprias leis. Sua casa era seu reino e nela ele mandava, assim como mandava no armazém e nos filhos, na mulher e nos genros, noras e netos. Mas nunca bateu em ninguém. Dominava todos com a força de seu olhar.

Mestre em gerar constrangimentos, agradar não era sua especialidade. Durão, não desperdiçava palavras, sorrisos ou carícias. E quase sempre maltratava as visitas.

Temido por todos na família, seu mau gênio permaneceu intacto com o passar dos anos.

Tinha as mãos e os dentes manchados pelo fumo de corda dos cigarros de palha que enrolava e alternava com o cachimbo, eterno companheiro. Dono de uma saúde invejável alimentada por uma vida regrada até no vício, morreu com o fígado intacto, alheio ao litro de conhaque barato que entornava a cada semana.

Homem honesto, honrado, de palavra, cumpridor de seus deveres, morreu aos 83 anos, fã de Mussolini e convencido de que o homem jamais pisara na Lua.

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