Antártida, uma viagem que não passa em branco

Até pouco tempo a imaginação era o único bilhete para se chegar à Antártida. Hoje já se pode voar para Ushuaia, Argentina, ou Punta Arenas, Chile, e depois embarcar em um navio para conhecer a mais nova fronteira de viajantes em busca de experiências únicas.

Esqueça os estereótipos dessa fronteira, pois a Antártida vai muito além do frio e da neve. É impossível captar em cliques fotográficos o sublime, a amplitude e mais, reproduzir a complexidade daquela beleza. Nessa paisagem minimalista – montanhas brancas, mar e céu – o cenário é sempre cambiante.

Parece traquinagem da natureza, pois conforme o ângulo dos raios solares, mudam as cores oceânicas, as do céu e do gelo. Tonalidades de verdes e azuis predominam nas águas geladas. Cobalto e tons cinza para o céu; para as montanhas, marfim riscado de negro vulcânico. O dourado surgirá, para desaparecer logo em seguida, dependendo do humor do sol.

O ar é seco, e a paisagem marinha devido aos icebergs é um dos mais atraentes espetáculos da natureza. De dimensões e formas inusitadas eles captam os efeitos do sol e os reverberam ao seu redor. Sua visão vem sempre acompanhada dos mais belos adjetivos que um idioma pode produzir. Desta geografia emana tal fascínio que beira a grandeza de uma viagem épica.

A carta na manga da viagem se concentra nos desembarques em terra. Diante de um ambiente à primeira vista hostil, ‘curiosamos’ como um naturalista ou um explorador que palmilhou a mesma região nos séculos passados. E somos arrebatados pelo mesmo deslumbramento ao aportar num mundo inexplorado, desconhecido, farto de beleza. paisagem ali não é diferente do tempo desses primeiros aventureiros.

Quando entramos em contato com a fauna local, então temos certeza de que estamos diante de uma obra-prima da natureza. As boas-vindas são dadas por pinguins imperadores, pelos pequenos gentoos ou os macaronis, aqueles com tufos dourados na cabeça, assim como gaivotas, petrel-gigante, skuas, albatrozes, focas, leões-marinhos e baleias.

Depois de alguns dias eles se tornam velhos conhecidos, e avistá-los produz momentos de pura alegria. Mas é a natureza, desde sempre, que manda nesse território. As mudanças climáticas são rápidas – em menos de cinco minutos o céu que era azul e a claridade se fecham sob nevascas – mas ninguém quer arredar o pé dali. A aura de mistério que cerca o continente explica sua forte atração sobre tantas pessoas.

O itinerário dos cruzeiros privilegia glaciares, fiordes, estreitos, ilhas e pitstop nas estações cientificas da Polônia, quase ao lado da brasileira Comandante Ferraz que está em construção devido ao incêndio ocorrido há cinco anos. Visitam-se ainda as estações da Argentina, do Chile e da Inglaterra que fica em Port Lockroy, hoje transformada em museu. Todas na Península Antártica.

Para dar suporte científico à viagem, durante a navegação, são proferidas palestras e exibidos filmes sobre o continente. “É legal ouvir as conferências e as histórias dos exploradores. Isso cria um clima de aventura e de interação com o local”, diz o turista inglês Harold Finn, 67. Ele, por sua vez, tem muito valor. Mesmo com dificuldades de locomoção, devido a poliomielite, não deixou de desembarcar nenhum só dia. Sua capacidade de superação me emocionou.

Outras belezas da Antártica não estão na paisagem, mas nas histórias de conquistas e derrotas vitoriosas dos primeiros exploradores. A mais impressionante é a da expedição fracassada de Sir Ernest Shackleton (1874-1922), que pretendeu cruzar esse continente a pé em 1914. Esse relato se lê como fantasioso, mas é pura realidade. “Antártica é um lugar que cativa sua imaginação e sua alma”. As palavras de Shackleton ecoam na mente de cada um que se dá o privilégio de visitar esse continente.

Para quando você for – Melhor época é final de outubro a começo de março, quando os dias são longos e o frio mais ameno.

Quem te leva – São várias as companhias de navegação que fazem roteiros de uma a duas semanas para a Península Antártica, partindo de Ushuaia e Punta Arenas, Fuja dos grandes navios que não permitem o desembarque de passageiros em solo antártico.

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