Me amarro no Brasil

O Brasil está difícil. Corrupção, impostos, conluios, recessão, desemprego, tenebrosas transações. Nada disso eu engulo. Isso posto, quero dedicar este espaço ao que eu gosto do Brasil: empada, pastel de feira, cana de açúcar, curau de milho, pamonha, paçoca, goiabada cascão, queijo branco, requeijão, tudo com coco. A mania de abraçar e beijar até mesmo estranhos recém apresentados pelos amigos.

Nossas matas, nossas flores, nossos frutos: jabuticaba, goiaba, açaí, graviola, caju, caqui, pitomba, jaca, cajá, banana ouro, banana prata, banana da terra, banana nanica, amora, pitanga e muitas mais, tantas que nem sei os nomes, tantas que nem nunca provei, na vastidão deste território plural que é o nosso país.

Gosto dos diferentes sotaques, das diversas culturas, da variedade dos tipos humanos. Fiquei encantada com Minas e sua síntese do país. Maravilhada com a Amazônia e a grandeza de suas florestas e rios, a diversidade de sua fauna e flora. Quanto à Mata Atlântica, é até covardia compará-la a qualquer outra floresta. Ela ganha em tudo, no quesito beleza principalmente.

O cerrado nos dá as águas que formam os rios que matam nossa fome e nossa sede. O Pantanal é um mundo povoado por seres e bichos muito diferentes das demais regiões. O Nordeste é outro território. Árido, diverso, riquíssimo em cultura. Nordestinos são nossos maiores escritores, compositores, cantores. Ô gente trabalhadeira e talentosa!

Salvador, Recife, o Recôncavo baiano, o sertão de Guimarães Rosa, os Pampas de Érico Veríssimo! O Rio de Janeiro, insuportavelmente belo! Os gaúchos com seu orgulho, seu gosto pela carne e pela imensidão das planícies. Os paulistas, como eu, descendentes de imigrantes, trabalhadores ferozes, adoradores do progresso e da pontualidade. Crentes na meritocracia, exigentes e apressados. Em vários aspectos, dotados de menos brasilidade.

E as redes, as redes, Deus meu, penduradas por toda parte! Como viver num lugar onde não há redes? Nem moringa, nem varandas, nem alpendres? Nunca ter visto o voo das araras azuis ao raiar do sol, na mata ainda escura? Confundir o rio com mar, nadar em mar quentinho, ouvir o som da rabeca, do acordeão, do berrante, da sanfona, do baião?

Tomar banho de cachoeira na Chapada Diamantina, conhecer as flores da Chapada dos Veadeiros e percorrer os cânions do Rio Grande do Sul.

Viver sem nossa trilha musical, não seguir bloco de rua no Carnaval. Não ver as alas das baianas, a velha guarda das Escolas de Samba. O afoxé da Bahia, o frevo de Pernambuco, os cocos, maxixes, umbigadas. O rap de São Paulo, as pichações, os grafites, os mamulengos, as festas Juninas!
Não saberia viver num país sem fogueira de São João, sem dançar quadrilha, sem quentão. Sem as cantigas de ninar, sem os sambas de Cartola e Noel.

Lamento desapontar os mais revoltados, mas me seria impossível abandonar o Brasil!

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